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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Trecho de "A Primavera"

Conto preferido de padre Fábio de Melo fala de amor impossível
leia trecho da Folha Online
13/08/2009 - 10h21

Ao mostrar as similaridades entre as trajetórias das mulheres e de Deus, o livro "Mulheres de Aço e de Flores" (Editora Gente, 2008) coloca em evidência a fragilidade e a força usadas tanto para gerar o mundo quanto para embalar destinos. De acordo com o padre Fábio de Melo, autor da obra, esta foi a mais difícil de ser finalizada: "Eu tinha 52 contos e precisava escolher 20", disse, em entrevista à Livraria da Folha.

No de nome "A Primavera", escolhido pelo padre como um dos trechos "fundamentais" de seus livros, o autor assume a identidade de uma mulher, que fala sobre sua angústia diante de um amor fadado à desgraça. A moça, que vinha de um casamento arranjado, na verdade era apaixonada pelo irmão do seu marido. "Enquanto eu recebia o beijo de um, o coração desejava era o beijo do outro." Leia o trecho inicial do conto, retirado do livro "Mulheres de Aço e de Flores" :

A Primavera

Eles eram dois. O mais velho era também o mais robusto, o mais vistoso. Trajava roupas de acabamento fino; pisava o chão com sapatos visivelmente caros e demonstrava intimidade com as palavras. O mais novo era também o mais tímido. O corte do terno não merecia atenção. Nele, um mínimo de palavras. O olhar baixo, quase sem expressão. As mãos no desajeito, mãos sem pertences, sem futuro feliz e as pernas num balanço descompassado, denunciando que não gostariam de ter chegado. O sapato era sem nenhum atrativo estético. Um sapato feito para durar e só. O mais velho tinha bigodes. O mais novo não.

A cara limpa lhe conferia um jeito de rapaz que ainda não sabia o que esperava da vida. O bigode do outro lhe trazia uma seriedade que parecia garantir a prontidão para o casamento. Talvez seja por isso que papai o tenha escolhido para ser meu marido. Numa tarde de domingo, quando os ventos frios prolongavam o sepultamento das cigarras, chegou e anunciou que eu me casaria com o filho mais velho de Expedito Bittencourt. Disse que o rapaz voltaria de São Paulo para arrumar uma mulher que lhe dispensasse os cuidados de esposa. Eu ouvi a notícia calada, e calada permaneci por uma semana.

Dois meses depois, quando o calor de agosto ardia nas cores vermelhas das tardes e intimidava minhas caminhadas pelo coreto da matriz, o dito rapaz chegou e trouxe o irmão mais novo, Alberto. Quando os dois homens cruzaram a soleira da porta principal, senti as carnes se desprendendo dos meus ossos; sensação que parecia antecipar o meu destino de ser imaterial, de perder-me nas poeiras do mundo. O olhar perdido, sem distinção e ainda cheio de dúvidas durou um minuto. Eu olhava os dois e não sabia qual deles seria o meu marido. Embora o mais velho fosse portador de uma postura avantajada e ocupasse a centralidade da sala, os meus olhos se ocuparam foi do mais moço, o mais franzino, que timidamente encostou o corpo na cristaleira próxima da janela da sala.

O sorriso do mais velho falou no mesmo instante que as palavras de meu pai. Era ele. Os meus olhos estavam perdidos em Alberto que, ao seu modo, também me olhava. Um olhar quase triste, assustado, como se percebesse a fatalidade que parecia ter o seu início ali. Fatalidade em partes, dia a dia, prolongada no tempo. O mais alto dirigiu-se até mim e gentilmente beijou-me a mão. No gesto de abaixar-se com cavalheirismo, pude ver os olhos de Alberto que, posicionado na mesma direção de seu irmão, parecia emprestar-lhe o rosto. O corpo que se abaixava dava espaço para eu ver os olhos que me fascinavam.

Enquanto eu recebia o beijo de um, o coração desejava era o beijo do outro. Eles eram dois. O meu coração era um só. Indiviso, experimentava naquela fração de tempo a totalidade de um amor sem história pregressa. Um amor maturado, mas sem passado. Inaugurado há tão pouco tempo e já fadado à desgraça que marcou os grandes amores que a humanidade já conheceu. - É possível amar alguém assim, com tanta pressa? -, pensei. Mas não havia pensamento a ser racionalizado. O que havia era o frio na espinha anunciando que a vida era eterna naquele instante. O que havia era o coração descompassado, querendo pular do peito, pronto para morrer de tanto amar.

Naquela noite o mais velho oficializou o pedido ao meu pai. E enquanto os cumprimentos de congratulações aconteciam, pude perceber a enfermidade nos lábios de Alberto. Dele, nenhuma palavra se ouviu. Entrou mudo. Calado saiu. Eu também não disse nada. Os dias se passaram. Acumularam-se os meses. Com regularidade, o irmão mais velho vinha cortejar-me.

Cumpria-se a obrigação do namoro, o tempo reservado ao conhecimento que nos autoriza o passo definitivo. Não houve conhecimento algum. Apenas a dor de saber-me só. Um beijo de chegada e outro de despedida. Um beijo sem alma, sem profundidade. Apenas o roçar dos lábios em exercício de caridade. Nenhum toque me despertava os sentidos. Meu corpo preservado não sabia desejar aqueles braços fortes. Ele suplicava era pelo encosto suave das mãos de Alberto.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Deus e os Absurdos do Mundo


Jogar a culpa de nossas desgraças nas costas de Deus é muito simples

Não temos o direito de pedir a Deus que faça um círculo ser quadrado. Como sabemos, as regras da vida precisam ser consideradas. Se compreendermos essas regras, certamente vamos alcançar uma fé madura e crescer como pessoas responsáveis.

A psicologia nos ensina que um dos elementos que acenam para a maturidade da pessoa é justamente sua capacidade de assumir as responsabilidades e responder pelos erros.

O nosso jeito de praticar a religião nem sempre é maduro, isso porque muito facilmente acreditamos que Deus resolverá todos os nossos problemas. Insistimos em acreditar que Ele nos livrara de todas as consequências de nossas escolhas erradas, e que uma vida em Deus é uma vida sem problemas. Engano! Quanto mais crescemos em Deus, maior é a necessidade que temos de purificar os nossos excessos. Esses excessos se dão em todos os detalhes de nossa personalidade, desde as nossas compreensões mais simples até mesmo às compreensões mais elaboradas.

O jeito como reagimos diante de uma determinada situação depõe contra ou a favor do que consideramos como maduro em nós. A maneira como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem é um modo interessante de medir o nosso grau de maturidade. Um exemplo simples: um rapaz embriagado atropelou uma menina de seis anos no centro de uma cidade no interior da Bahia. Para se livrar da responsabilidade do acontecido, o jovem recorreu ao absurdo de dizer que estava possuído pelo diabo, e que por isso a matou. Ao utilizar-se de um argumento como esse, o rapaz demonstrou ser realmente vítima de uma única possessão: a ignorância. Ao culpar o demônio pelo absurdo de suas displicências, o rapaz tenta se eximir de forma imatura e vergonhosa da responsabilidade de pagar pelo crime cometido.

A maturidade também se expressa no que pedimos. Outro exemplo simples: uma pessoa fumou a vida inteira, nunca se esmerou por lutar para deixar o vício, e, num determinado momento, descobre que tem câncer. Então se coloca a pedir a Deus um milagre. É justo? A doença não nasceu das escolhas que fez? Tenho o direito de colher o que na verdade não plantei? Acho pouco provável.

O milagre é realizado a quatro mãos. Mãos de Deus e mãos humanas. O que deixo de fazer ou o que negligencio agora poderá comprometer o bem a que Deus já me destinou. O Senhor não quer as tragédias do mundo. As tragédias humanas são construídas aos poucos por nós mesmos. É preciso maturidade para assumir. Jogar a culpa de nossas desgraças nas costas de Deus é muito simples. Assim ficamos eximidos de qualquer responsabilidade ou comprometimento.

Grandes acidentes acontecem com pequenos descuidos. Ao dizer que nem mesmo um fio de cabelo cai de nossa cabeça sem que o Pai do céu permita, Jesus não se refere a acidentes absurdos. A permissão de Deus está sempre conectada à natureza de Sua bondade. Deus é bom. Não há variações em Sua vontade. O Seu querer para a vida humana é sempre a vida, e vida em abundancia. De Deus não nascem tragédias. Os acontecimentos trágicos do mundo não são frutos de permissões divinas, mas sim, de deliberações de nossa vontade.

(Trecho extraído do livro "Quando o sofrimento bater à sua porta")
Padre Fábio de Melo
04/05/2009


Fonte: Formação Canção Nova

domingo, 5 de abril de 2009

Primeiro Capítulo "Cartas entre amigos - sobre medos contemporâneos"

primeira carta...
"Não entendo
a tristeza como
ausência de
felicidade. Acho
que elas coexistem.
somos felizes e
tristes. Felizes
porque tentamos
entender a nossa
missão. Tristes
porque assim
tem de ser.”


Querido irmão padre Fábio

Tenho saudade dos meus dois irmãos que estão com Deus. Meu irmão Sávio morreu aos 21 anos. Jovem, belo, apaixonado pela vida. Um acidente de carro roubou-lhe a possibilidade de prosseguir em sua travessia.

Vi meu irmão morrendo. Estava ao seu lado. Ele dirigia e contava histórias de um amanhã que não chegou. Cantamos sozinhos naquela noite longa. Nós dois. Eu tinha apenas 15 anos e, por milagre, sobrevivi. Vi seu soluço inconsciente, seu suspiro final. Tentei abraçá-lo, enquanto vozes se aproximavam. Meus braços não se moviam. A dor física era pequena diante da possibilidade da separação. Olhei-o com ternura. Separamo-nos. Meu irmão partia sem ter o direito de se despedir. Sem dizer o que gostaria que fizéssemos por ele. Apenas partiu. Minha mãe vestiu-se de preto por algum tempo. As sombras tomavam seu semblante, e gritos de dor eram entremeados por dias de silêncio. Meu pai era só silêncio. Em suas orações, lágrimas solitárias pediam a Deus que acolhesse o fruto do seu amor. A morte nunca tinha estado tão perto de mim. Acho que não pensava muito nela. Nos dias em que fiquei engessado, tentando recompor partes quebradas do meu corpo, quebrei-me em perguntas sem respostas. Por que o caminhoneiro dormira? Por que ele partira e eu ficara? Porque apenas o meu banco quebrara, jogando-me um pouco para trás, e o dele não, se ele era maior do que eu?

Antes do acidente com o Sávio, convivi com a morte quando meu avô Gabriel partiu. Foi pouco tempo antes. Sofri também, mas compreendi que seu sofrimento físico tinha chegado ao fim. Assustei-me quando o vi num caixão. Lembrei-me dos dias em que eu, criança, dava aulas para ele e para minha avó num quadro-negro. Chorei a certeza de não mais ouvir suas anedotas singelas e suas histórias de uma Síria do passado. Fazia poesia com simplicidade, meu avô Gabriel.

Mas a morte do Sávio... Sou o filho caçula. Dormíamos no mesmo quarto, e ele fazia-se de forte, investigando todos os lugares onde poderia haver algum perigo capaz de nos atingir. Sorria quando, depois de certo suspense, comunicava que nem debaixo da cama, nem atrás das cortinas, havia monstros ou figuras semelhantes. Podíamos dormir em paz. Era carinhoso. Irreverente. E gostava de viver.

Meu irmão Júnior também partiu. Sua alegria pura, sua ingenuidade de uma infância sem fim, presentes da síndrome de Down, fazem falta. Meu pai dizia da dolorosa surpresa quando soube que meu irmão era diferente das outras crianças. Minha mãe também estranhou sua chegada. Mas isso foi por pouco tempo. Júnior tornou-se o centro das atenções. Cantarolava sozinho e sorria sem economia. Beijava, abraçava e vez ou outra chorava. Tentávamos entender onde era a dor. Não era fácil. Sua melhor comunicação vinha da alegria apenas. Na cadeira de balanço, meu pai brincava com ele. Minha mãe dava-lhe na boca o alimento que nutria seu corpo e sua alma. Sua partida deixou um vazio imenso. Trinta e poucos anos e nada mais. Brincou de dia. Brincou no hospital e se foi... brincando.

Irmãos que partiram prematuramente. Irmãos que continuam presentes na capacidade que tenho de pensar neles.

Quando nos conhecemos, padre Fábio, eu não imaginava que nossas almas tivessem raízes comuns. Fomos plantados em solos fertilizados com sofrimento e esperança. Sua poesia, misturada a alguma tristeza, torna seus dizeres mais profundos. Seu jeito de falar, sua forma de estar presente, sua capacidade de ouvir a dor, tudo isso foi fazendo com que nossa travessia ganhasse um novo sentido. Você é meu irmão, sim, padre. Não em substituição àqueles que partiram, mas em presença de Amor. Com você, sinto-me livre para errar com minhas verdades provisórias. Com você, não tenho pressa. Gosto de ouvir suas canções e suas histórias. Admiro seu jeito de falar de Deus, sua estética religiosa, seu talento humano. Faz algum tempo que partilhamos projetos e dúvidas, e tem sido tão bom. A felicidade só deixa de ser utopia quando nos completamos com a inteligência e o afeto do outro.

Não entendo a tristeza como ausência de felicidade. Acho que elas coexistem. Somos felizes e tristes. Felizes porque tentamos entender a nossa missão. Tristes porque assim tem de ser. A tristeza nos empresta respeito ao outro e percepção mais aguçada da dor. Talvez tristeza seja ausência de alegria, de riso fácil, não de felicidade.

Hoje é véspera de um dia qualquer e estou triste. Acordei com saudade do meu pai. Tantas coisas aconteceram em minha vida depois que ele se foi. Meu pai. Quando escrevi a sua história como um presente em seu aniversário de 80 anos, não tive dúvida quanto ao título: Memórias de um homem bom. Sua simplicidade falava-me de um Deus que mora na ternura e que acolhe. Sua sabedoria falava-me de um Deus que não julga, mas compreende; que não afasta, mas ama. Seu olhar permitia-me lançar-me em aventuras, ora corretas, ora necessárias à satisfação da minha curiosidade. Caí algumas vezes. Mas eu sabia que ele estava ali para qualquer arranhão mais doloroso. Ele não está mais aqui comigo. Está em mim, porque trago muito do que ele deixou. Mas ele não me abraça. Não sorri para mim. Não me diz coisas que cicatrizem as minhas feridas. Tenho saudade do meu pai, padre. Do seu colo, das suas cantigas amadoras, das histórias recontadas de uma vida marcada pela dor. Meu pai sofreu muito. E sem lamúrias. Minha fortaleza partiu para junto de Deus. Eu entendo que estamos aqui de passagem. Tenho fé de que há outro porvir, um lindo céu que nos aguarda, mas isso não retira de mim a saudade que dói.

Meu pai falava de mim com orgulho, do seu filho escritor. E eu brincava com ele, dizendo que não havia idade para ingressar no mundo das letras transformadas em história ou em dizeres poéticos. Cora Coralina estreou na literatura aos 76 anos de idade e fez da vida e da morte uma poesia:
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

Cora viveu de felicidade e de tristeza. Teve uma infância que não deixou saudades. Ela escreveu isso muitas vezes.
Quando nasci, meu velho pai agonizava,
logo após morria.
Cresci sem pai,
secundária na turma das irmãs.

Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente”.

Falava dos apelidos debochados, do sonho frustrado da mãe de ter um filho homem, dos trambolhões da escada, galo na testa, pernas moles. Falava de uma dor doída de uma infância que não viu sorriso. A dor poderia tê-la paralisado. Mas o cenário dos sentimentos viu outra apresentação. Cora Coralina rezou a saga da mulher vitoriosa:
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.

Cora Coralina não buscou o lado mais fácil da vida, mas conseguiu compreender que, mesmo sem facilidade alguma, era possível encontrar a tal poesia no cotidiano da dor. Não há poesia sem dor. A vida nasce da dor. O amor mais amado surge depois de uma dor prolongada. Amor de mãe!

Não há amor sem conquista. Os amantes precisam ao menos se deixar conquistar. As artimanhas da sedução têm o encanto próprio de quem tenta tocar no ponto frágil para depois fortalecerem- se juntos. Amores doídos, os não correspondidos. Histórias de ausências, de lágrimas, de quem deu e não recebeu. Não deveria ser gratuito o sentimento daquele que ama? Não é gratuita a chuva que cai abundantemente? A vida, toda ela é uma graça. Mas os homens não são deuses. E poucos são aqueles que conseguem dar sem exigir, sem projetar. “Quebrando pedras e plantando flores.” Quando penso nos sofrimentos de meu pai e na sua leveza, fico me perguntando se uma coisa tem relação com a outra. Será que as pessoas que mais sofrem são as que mais amadurecem? Será que a dor tem o poder de dar majestade ao amor?

Na minha infância, padre Fábio, experimentei a carência que todo menino de certa forma experimenta. Meu pai ficou doente algumas vezes, e eu esperava sua volta depois de longas sessões de quimioterapia. Sofria calado. A ausência poderia chegar a qualquer momento. Eu rezava do meu jeito. E meu pai ficou curado. O tempo passou, e, sem doença alguma, ele se foi. No dia em que meu pai morreu, tínhamos ido juntos a um casamento. Ele sorria com certa tristeza e, com delicadeza, se preocupava em não atrapalhar a festa com o incômodo da sua dor. Era apaixonado por minha mãe e sabia quanto ela gostava de festas. Sacrifícios por amor trazem menos dor. Fomos juntos para casa, depois juntos para o hospital. Depois, separados. Beijei-o com ternura e fiquei imaginando o que ainda ficara por ser dito nesses anos em que falamos muito ou quase nada.

Pergunto muitas vezes a Deus: por que tanto sofrimento se um dia estaremos juntos, plenos de amor?

Chorei a ausência das reações humanas daquele corpo sem vida. Chorei a orfandade incômoda, o adeus forçado, a separação. Choro hoje a impossibilidade dos afetos. É abstrata a sua presença. É memória e esperança. Apenas isso. Meu pai amado não passa mais os natais comigo, nem meus aniversários.

Em uma triste carta, uma mulher contou-me sua história de dor. Ela perdeu um filho com alguns meses de vida, engasgado com mingau. Perdeu um sobrinho queimado e um neto afogado. Na carta, ela queria que eu explicasse por que essa sina de tantas crianças mortas em sua família. Queria uma resposta. Queria saber se Deus, por algum motivo, tinha decidido castigá-la. Li algumas vezes aquele bilhete ensanguentado de perdas. Tentei formular alguns dizeres. Falar apenas que é preciso ter fé parecia não diminuir a angústia de uma vida de ausências arbitrárias. Ela naturalmente não tinha escolhido. Não houve decisão voluntária de se afastar das sementes que não chegaram a germinar. Por que com ela? E tantas vezes seguidas? Fiquei imaginando as reações. O desespero. O choro diante da criança. A culpa. Como reconstruir? “Quebrando pedras e plantando flores”? Como convencê-la disso?

Hannah Arendt é uma das maiores filósofas da história do pensamento.

Nascida em Hannover em 1906, teve uma infância acalentada com todo o carinho e estímulo cultural necessários a uma vida de sucessos. Os pais eram judeus assimilados e apaixonados pela liberdade que o respeito ao outro proporcionava. Leu em livros e aprendeu com exemplos o sentido de uma vida correta. Brincou de ser independente, de dizer o que pensava.

Diferentemente de Cora Coralina, a infância de Hannah prenunciava uma vida sem grandes traumas. Embora tivesse perdido o pai muito cedo, a mãe a educou seguindo os melhores preceitos do amor e dos limites corretos, para que a responsabilidade pelo outro, a autodisciplina e a harmonia interna e externa não fossem abandonadas.

Sua vida, entretanto, começa a mudar com a Primeira Guerra Mundial, de 1914. De uma infância segura e feliz a uma adolescência frágil. A mãe casou-se com outro homem, e Hannah tornou-se triste e rebelde. Em 1924 o filósofo Martin Heidegger aceitou orientar sua tese sobre o conceito de amor em Santo Agostinho. Hannah apaixonou-se perdidamente por Heidegger. Ela tinha 18 anos. Ele tinha 35, era casado e pai de dois filhos. Foram amantes por algum tempo, até que, depois de tanto sofrer de paixão, ela resolveu pôr fim à história e se casar com outro homem. Sem conseguir separar o amor dos embates filosóficos, Hannah passou a ser orientada por outro pensador, amigo de Heidegger, Karl Jasper. Esse professor tornou-se o exemplo de integridade moral e intelectual para a jovem Hannah. Depois da defesa do doutoramento, a alegria de ingressar na atividade docente foi subtraída pela ascensão dos nazistas ao poder. Sua grande frustração foi ver Heidegger, o homem que ela amou e admirou, apoiando os nazistas. Hannah foi presa, mas conseguiu fugir ilegalmente para Paris, onde conheceu Walter Benjamin e outros judeus-alemães refugiados do novo regime. Sua felicidade na cidade das luzes durou pouco. Os alemães invadiram Paris, e, com Walter Benjamin e alguns amigos, Hannah partiu em direção à Espanha. A fronteira estava fechada. Sem conseguir resistir ao medo de ser pego pelos nazistas, Benjamin suicidou-se. Hannah assistiu à partida de todos aqueles que admirava. A solidão e a dor não a destruíram. Da Espanha, Hannah partiu para Lisboa e em 1941 chegou aos Estados Unidos.

Hannah Arendt não falava inglês, o que dificultou seu ingresso intelectual na nova pátria. Sentiu-se discriminada, mas prosseguiu. Lutou pela vida e pela possibilidade de defender seus irmãos semitas e tantos outros irmãos privados da liberdade ou da construção da própria história apenas por terem nascido filhos de um povo perseguido. Em 1951, Hannah Arendt tornou-se cidadã americana. Em pouco tempo a refugiada se transformou na famosa conferencista que encantava os ouvintes em Harvard, Princeton e Chicago. Voltou à Alemanha e a Paris respeitada pelos conceitos que disseminava. E o mais fascinante em sua história é que, mesmo depois de tanto sofrimento, seu grande legado foi a ideia de que a solução para a humanidade estava no amor mundi, ou seja, no amor pelo mundo. Em sua obra A condição humana, publicada em 1958, Hannah Arendt faz um retrospecto da história do pensamento desde os gregos e romanos, tentando explicar a presença do homem no mundo e seu percurso em busca da liberdade. A liberdade que só pode ser proporcionada por um amor capaz de construir e respeitar as diferenças. “Quebrando pedras e plantando flores” – essa foi e é a marca de Hannah Arendt.

Pensei em dizer alguma coisa parecida à mulher sofrida que buscava razões para as suas perdas, para as suas pedras. Temi dar uma resposta pronta, fácil, para uma vida tão dura, tão difícil.

Lembrei-me de um amigo querido, que, nos momentos finais da vida terrena, em um quarto de hospital, perguntou-me sobre o fim. Tentei responder como alguns filósofos explicavam a morte, e ele, inquieto, queria saber o que eu pensava do fim. É mais fácil dizer o que os outros pensam do que dizer o que a gente sente. Era um amigo que partia. Um amigo amado. Tinha sido meu professor de história e me ensinado a conhecer um pouco da riqueza do homem no mundo. Respondi que não sabia. Que o mistério da partida não tinha sido revelado a homem nenhum. Lembrei-lhe que, nas aulas que magistralmente conduzia, ele nos falava das muitas religiões, cada uma com explicações tão diversas para o adeus do corpo. Ele apenas me olhava, esperando que algo mais fosse dito. Não se tratava mais de uma pausa. Tratava-se do fim. Pausas existem aos montes em nossa vida. Como as pálpebras que fazem toda a diferença porque descansam a visão. Ele sabia que as pálpebras em pouco tempo descansariam para sempre e queria uma resposta. O que eu disse naquele janeiro ensolarado em um quarto de hospital foi que acreditava em Deus. E ele concordou com a cabeça, dizendo que também acreditava. E eu me enchi de coragem e disse-lhe que ficasse tranquilo. Se Deus de fato existisse, não nos trataria como um brinquedinho que, quando velho ou estragado, se joga fora para dar lugar a outro. Fomos feitos para muito mais que isso. Ele sorriu. Naquela espera do fim, ele sorriu. De fato, Deus não nos fez para o nada, mas para a plenitude. E a plenitude é complexa demais para que nossa razão saiba explicá-la. Meu amigo ficou com as pálpebras cerradas, assim como o filho, o sobrinho e o neto da mulher que me escrevera aquela carta.

Padre Fábio, parece-me impossível não ter medo da morte. Por mais intensa e significativa que seja nossa fé, por maior que seja nossa intimidade com Deus, esse mistério incomoda profundamente. Por que não nos foi revelado em momento nenhum o que virá depois? Não seria menos doloroso? Não viveríamos com mais serenidade? Por que essa espera?

Uma vez, no enterro do filho único de uma mulher octogenária, ouvi de um padre uma metáfora. Diante da dor, ele falava do inverno na Europa. No Velho Continente, as flores morrem quando o frio chega. Os ramos secos mostram que a vida ficou no passado. Ledo engano, dizia o padre. Na primavera, elas ressurgem miraculosamente. Se não soubessem disso, talvez perdessem a esperança de ver novamente o jardim florir. A morte é a primavera da alma. O que parece ser o fim da vida é vida em transformação. Será isso, padre? Por que o mistério? Por que não sabermos antes, com detalhes, o que virá depois? Se somos eternos, por que precisamos passar pela morte? Não poderíamos ter nascido todos no céu e sermos todos felizes de uma vez? Quem decidiu assim? Deus?

Tenho saudade do meu pai. Estou ouvindo agora a linda música de A vida é bela, de Roberto Benigni. O filme é de 1997 e conta a saga do livreiro Guido, que foi levado para um campo de concentração nazista, na Itália dos anos 40. Mesmo ciente da gravidade da situação, o pai conseguiu, com muita imaginação, transformar os horrores da rotina do campo de concentração em regras de uma gincana divertida, pelo menos aos olhos do filho de 6 anos. O intuito era proteger o filho do terror e da violência que os cercavam.

O filme traz o contraste entre as pedras e as flores, entre a vontade de ser feliz e a monstruosidade da guerra, entre o desejo do amanhecer e as agruras da noite longuíssima. Com espírito leve, porém crítico, comoveu plateias ao falar de um dos maiores dramas do século 20: o Holocausto.

Benigni se disse influenciado, além de Charles Chaplin, por Leon Trótski, um dos artífices do socialismo russo. Em seu exílio no México, foragido de seu país, ameaçado de ser morto a qualquer momento, Trótski foi capaz de contemplar a mulher no jardim e escrever que, apesar de tudo, a vida é bela e digna de ser vivida.

É esse otimismo incansável que impregna a história de Guido e faz do filme, como disse seu diretor, “um hino ao fato de estarmos condenados a amar poeticamente a vida porque ela é bela”.
O pai ia para a morte e se preocupava com a vida do filho. Milhões de judeus morreram da mesma maneira, e ainda assim uma judia, Hannah Arendt, justificou os males do mundo como a ausência do amor, o amor pela pessoa humana, o amor pela natureza. Ontem, visitando uma amiga, fiquei impressionado com o amor que ela dedica a um cachorrinho que chegou à sua casa pelas mãos de uma amiga que não suportava mais as suas farras caninas. O cachorro, ainda filhote, não parava um minuto. E ela sorria com a alegria que tinha aquele animal. Hoje, vi um homem batendo em um cachorro que não lhe obedecia. Defendi o animal, que parecia se contorcer de dor. Ninguém aprende assim! Por que um cachorro teve a sorte de encontrar um lar cheio de afagos e outro é vítima de espancamentos? Por que algumas crianças nascem em lares saudáveis e outras não? Por que, meu amigo, há tanta beleza de alma confrontada com tanta feiura? Quem decidiu isso?

Não soube o que dizer à mulher que me escrevera aquela carta. Apenas ensaiei alguma poesia para aliviar o seu provável pranto e contei-lhe outras histórias tristes que talvez a consolassem. Ao final, disse-lhe para não se esquecer de que continuava viva, e todas essas crianças viviam nela e em um lindo céu, que eu não tinha o poder de descrever, até porque não se tratava de um
lugar, mas de um estado de amor.

E agora tenho de dizer isso para mim também. Meu pai vive em um estado de amor junto com tantos que simplesmente amaram. Mas não posso abraçá-lo. Talvez possa dizer alguma coisa,
acho que ele me ouve.

“Quebrando pedras e plantando flores”... A vida é bela, meu irmão amado.

Sua bênção,
Gabriel


segunda carta...

“O amor nos socorre
do esquecimento.
Retira o poder
definitivo da lápide,
porque sobrevive
na continuidade
do que plantamos.”


Querido Gabriel

Obrigado por sua carta. O papel pousado sobre a mesa segreda motivos que não cabem nos conceitos das palavras, mas extrapolam a grafia porque pertencem a algo a que não sabemos
dar nome. Sua carta foi uma visita agradável que recebi. Chegou quando não a esperava e quebrou a sequência do meu cotidiano. Floresceu diante de meus olhos, assim como o ipê desafia as regras do inverno e se reveste de flores.

Meu caro amigo, diante de suas confissões, concluo mais uma vez que a dor é um território santo.

Há uma passagem na Sagrada Escritura que considero de beleza insondável. Moisés estava diante de uma sarça que ardia sem se consumir, quando ouviu o imperativo de Deus: “Retira as
sandálias dos teus pés, porque este solo que pisas é santo!”.

Confesso que este imperativo musicou meu coração durante a leitura de sua carta. A trilha sonora fez com que as palavras lidas se misturassem às palavras recordadas. É a partir desta simbiose que lhe respondo.

Confesso que estou temeroso. Não gosto de respostas apressadas. Tenho medo de dizer, sem dizer, afinal, que o que há de mais precioso nesta vida costuma ser vivido e experimentado a
partir do silêncio frutuoso.

Carlos Drummond de Andrade, o poeta mineiro que você admira profundamente, recomendava que, antes de escrever os poemas, é preciso conviver com eles.

Ele insinuava que antes do nascer da palavra há sempre um sabor de silêncio que precisa ser sorvido.

Creio que o poeta tinha razão. A boa palavra se alimenta de silêncios e pausas. Um grande poema costuma nascer de profundas e fecundas experiências de contemplação da realidade. O poeta, ao enxergar o silêncio do ainda não dito, diante dele se prostra e o experimenta, e somente depois o reveste de palavras.

Suas perguntas são religiosas. Elas buscam unir as pontas da corda que amarra a vida e a sustenta de sentido.

Costumo dizer que a dor é uma quebra da corda, porque nos retira da segurança. Há acontecimentos que nos fazem mergulhar no absurdo da existência. O absurdo é a ausência de sentido. É o momento da vida em que a alma se sente penetrada e transpassada por uma dor lancinante. É no momento do desespero que experimentamos a nossa humanidade em suas dimensões mais venturosas. Os exemplos já foram postos por você. Cora Coralina só foi a mulher que foi porque não fugiu dos absurdos do mundo. Deles fez poesia qualificada. A alma transliterada nos faz mergulhar nos recônditos de uma mulher que não viveu por acaso. A dor transmudada, redimida, purificada nos calvários da escrita que o ofício poético lhe reservou na velhice tem o poder de nos devolver a apetência do sonho. Cora Coralina nos encoraja a enxergar as belezas que se escondem nas tristezas.

Há um poema belíssimo em que ela narra a demolição do sobrado que marcou os áureos tempos de sua mocidade. A descrição minuciosa do acontecimento nos leva a experimentar os mesmos sentimentos que ela. Eu, que nunca havia pisado as soleiras do nobre sobrado, chorei com ela a amovibilidade daquelas paredes tão frágeis.

Gabriel, vez ou outra nós também presenciamos a demolição de nossos sobrados interiores. Vez ou outra precisamos encarar os monturos que restaram de nossas realidades. É o tempo, e sua bbatuta implacável a reger os acontecimentos. É o inevitável e seus dentes afiados.

Meu amigo, ao narrar a morte de seu irmão, pude reconhecer em suas palavras o ruir de uma presença humana. Sobrado suntuoso, acolhedor, ocupando a centralidade de sua cidade interna. Sseu irmão cumpria o ofício de ser parede protetora, telhado que o resguardava de seus medos, varanda que lhe permitia contemplar o bom da vida, naquilo que chamamos de fraternidade.

Um dia a fatalidade o resgatou. O sobrado foi demolido, assim como fora o sobrado de Cora.

Da mesma forma, seu pai, o homem que projetou a arquitetura de seu caráter e que lhe ensinou tudo o que você sabe sobre a bondade, também foi embora de maneira definitiva. Grandes pperdas, grandes pedras. Grandes aprendizados, grandes flores.

Gabriel, tenho contemplado de perto os calvários da humanidade. Mulheres com os filhos mortos nos braços, gritando pelo sentido, chorando a dor que não tem nome, a inversão brutal das regras da vida, o absurdo de ver partir, antes do tempo, a cria de suas carnes. Mulheres semelhantes àquela que entrou em sua vida através de uma carta e que reivindicava o direito de compreender o mistério da morte de seus inocentes.

Mais uma vez eu me recordo de Drummond e de seu sábio conselho: “Convive com os teus poemas antes de escrevê-los”.

Meu caro amigo, há acontecimentos que não combinam com explicações. E, mesmo que explicações existissem, não seriam capazes de aplacar a dor que provocaram. Nem sempre os claros e objetivos postulados da razão cartesiana conseguem resolver as questões humanas. Saber o porquê da morte não sana nem preenche a ausência sentida.

Como homem da religião, tenho constatado que o discurso religioso, quando mal aplicado, pode ser tão nocivo quanto o discurso desumano dos assassinos.

Escuto absurdos sobre Deus, quando pessoas movidas por boas intenções resolvem explicar as fatalidades do mundo. Frases simplórias e descomprometidas com a verdade não resolvem; ao contrário, agravam ainda mais o sofrimento, porque geram orfandade, descrença e abandono.

Justificam as tragédias humanas como “vontade divina”, retirando assim a responsabilidade humana dos acontecimentos, fruto das escolhas que fazemos. Respondem a tudo e a todos como
se o desvelamento do mistério pudesse resolver as questões.

Eu ainda prefiro o abraço solidário, o silêncio que nos permite proximidade e o comprometimento com a dor que me toca. Ainda prefiro sentir o vento frio do calvário a procurar o aquecimento mmórbido do sepulcro que nos cala antes da hora.

Gosto de compreender as religiões como tentativas humanas de refazer a corda. Tenho medo quando o discurso religioso é utilizado para responder de forma mágica a questões que são humanas, sangradas no asfalto das cidades, em lugares que nossos olhos não alcançam.

Por isso não tenho receio de afirmar que o específico das religiões não consiste em responder às perguntas, mas em nos ensinar a conviver com elas. Na tentativa de resolver os conflitos que nos afligem, corremos o risco de atentar contra a sacralidade dos fatos.

Dessa forma, deixamos de plantar as flores e insistimos em chorar sobre as pedras. Diante do sobrado demolido, Cora Coralina resolveu escrever o poema, pois sabia que as palavras poderiam resguardar o significado de tudo o que as pedras insistiam em sepultar.

Gosto de compreender a ressurreição de Jesus da mesma forma. Diante da ausência sentida, a saudade fez o apóstolo intuir e proclamar: “Ele está no meio de nós!”. O grito nasce do reconhecimento da transformação acontecida. Eles não eram mais os mesmos. O sobrado crístico já estava erigido na alma de cada um. João, o homem que era chamado “filho do trovão”, o homem de temperamento difícil, revestia- se de docilidade. Pedro, o homem que mal sabia falar, o homem que foi frágil até o momento da morte do melhor amigo, estava mergulhado numa coragem invejável. Eles se olhavam e percebiam que Ele não havia ido embora, mas apenas modificara a forma de ficar.

Isso retira a necessidade que temos da materialidade da ressurreição. Não importa que haja um corpo encontrado ou um corpo desaparecido. O que a ressurreição nos sugere é muito mais que um corpo material. O mais importante, e o que verdadeiramente pode mover o cristianismo no tempo, não está na prova material da ressurreição, mesmo porque não a temos. O que possuímos, e isso ninguém pode contestar, é o fato de que os discípulos nunca mais foram os mesmos depois da vida, morte e ressurreição de Jesus. A declaração cristã “Ele está no meio de nós!” nos assegura a continuidade do plantio das flores. Onde existir um ser humano comprometido com as palavras e a proposta de Jesus, lá Ele estará presente. Isso não é lindo, meu amigo?

Teilhard de Chardin, teólogo jesuíta, chamava isso de “cristificação do universo”. Esta mística nos permite uma aproximação ainda mais interessante da eucaristia, acontecimento ritual que nós, católicos, chamamos de “presença real de Cristo”. O que é a presença real? A matéria consagrada? O pão e o vinho somente? Não. Juntamente com as duas substâncias está o bonito e sugestivo significado da ausência. A comunidade que celebra, enquanto celebra, prepara a chegada do que vai voltar. A volta de Jesus não é apenas um acontecimento escatológico, reservado ao final dos tempos, mas induz a comunidade a um comprometimento histórico com as dores do mundo.

Jürgen Moltmann, grande teólogo alemão contemporâneo, aprofunda de maneira muito preciosa o conceito de esperança. Segundo ele, a esperança cristã é sempre operante, porque nos mobiliza a atualizar no tempo a presença do esperado.

Com isso, podemos saborear a espera. Ao socorrer os necessitados, podemos antecipar a volta de Jesus. Ao consolar o coração de uma mulher que perdeu um filho, e com ela sendo solidários, podemos dar início ao processo de sua cura.

Isso também é celebrar o mistério eucarístico. É deitar a toalha branca sobre o altar do coração humano, reconhecendo nele a dor que precisa ser redimida, e elevá-lo, em prece, aos céus. É a ausência humana sendo curada através da presença comprometida, movida por uma esperança operante, que encontra motivos para continuar na celebração sacramental que nasceu da ausência sentida.

O motivo da última ceia foi a preparação da ausência. Foi a oportunidade que Jesus teve de sacramentar em seus discípulos a coragem da continuidade. Nada mais bonito que preparar a ausência com um jantar entre amigos. O prato principal não era material. Do que eles precisavam era aprender a mística do alimento. Nós nos transformamos no que comemos. O que Jesus propunha não era um ritual de antropofagia. Comer e beber juntos significa estarmos comprometidos. O banquete não é lugar para saciar somente a fome do corpo, mas também a fome da alma. Ao estar com os que amo para me alimentar, de alguma forma eu os trago para dentro de mim.

Ao interpretar a transcendência do amor interpessoal, o filósofo Gabriel Marcel intuiu que amar consiste em olhar o amado nos olhos e dizer: “Tu não morrerás jamais!”. Ele pode ter aprendido isso ao contemplar a última ceia. Cora Coralina disse a mesma coisa, mas com palavras diferentes, que você citou em sua carta: “Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico, na música de seus versos”.

O amor nos socorre do esquecimento. Retira o poder definitivo da lápide, porque sobrevive na continuidade do que plantamos. Por isso a ausência é lugar de encontro. Basta exercer a força da visão poética, a via que costuma salvar o mundo de seus desesperos e ruínas.

Uma bonita expressão atribuída a São João da Cruz, o grande místico cristão, nos diz que “o que podemos conhecer de Deus são as pegadas de sua ausência”, uma frase que desconcerta os religiosos ávidos por sinais concretos. O que temos de Deus são vestígios. Por isso é tão importante não perder o desejo de procurar. Encontrar respostas é satisfação temporária. O bom mesmo é a investigação que nos mobiliza. As teologias nascem dessas ausências. É a partir delas que as teologias postulam as suas verdades, porque a ausência é uma categoria cheia de sugestões.

Volto à eucaristia. O que celebramos e o que vemos é muito pouco perto de tudo o que verdadeiramente significa o rito. Não podemos materializar a eucaristia, retirando-a da totalidade de sua abrangência. Digo isso, meu amigo, porque reconheço suas dores como eucarísticas. Assim como foi também a dor de Hannah Arendt, de Cora Coralina e de tantos homens e mulheres que semearam o mundo de flores e sentido.

Da mesma forma que não posso reduzir a eucaristia a um detalhe de sua totalidade, também não quero reduzir sua carta a uma simples resposta.

Permita-me dizer que suas perguntas, nascidas de suas ausências, saudades e indignações, em vez de me provocarem o desejo de lhe responder, fomentaram em mim muito mais silêncios que palavras. O pouco que escrevo é apenas um modo que tenho de dividir o que creio sobre tantas coisas, e que por ventura entra no contexto de suas falas. Talvez eu não tenha respondido absolutamente nada. Não importa. O mais bonito de tudo isso é saber que suas palavras me fizeram pensar nos sobrados que já reconstruí dentro de mim. Ausências às quais aprendi a atribuir sentido. Sofrimentos que antes eram capazes de me sepultar e que agora me sugerem experiência de plantio de flores.

O mais importante é que no sacramental desta carta pude recebê-lo em minha casa e a seu lado deitar a toalha branca sobre o altar dos nossos significados, para juntos repetirmos no tempo o que nele não cabe. A matéria que celebramos? Ainda não sei. Vou seguir o conselho do poeta. Vou conviver com ela e saborear o seu poder de silêncio, antes de encontrar as palavras que possam dizê-la ao mundo.

Obrigado pela eucaristia que sua carta me permitiu celebrar. Confesso que, ao terminar a leitura, tive o ímpeto de repetir uma expressão ritual, aquela que assegura a sacralidade da palavra proferida: “Palavra da Salvação!”. No íntimo de meu coração, rezei dizendo: “Glória a Vós, Senhor!”.

Permaneçamos unidos. Nesta mística, neste tempo, neste mesmo sobrado que os sábios chamam de amizade e que nos ajuda a enfrentar os medos que sentimos.


Com minha bênção,
Pe. Fábio

Fonte: Livraria Cultura

sexta-feira, 6 de março de 2009

Carnaval Canção Nova - Pregação

O direito de escolher

O Direito de Escol...

'Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, e justiça e verdade); Aprovando o que é agradável ao Senhor. E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as. Porque o que eles fazem em oculto até dizê-lo é torpe. Mas todas estas coisas se manifestam, sendo condenadas pela luz, porque a luz tudo manifesta. Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá' (Efésios 5, 8 – 14).

Essa palavra de São Paulo é muito rica. Estar na escuridão é, muitas vezes, estar sem opção de escolher. O processo de educação é mais rico quando nossos pais nos educam para escolhas; não para coisas determinadas. A regra não dá possibilidade de escolher.

Fico muito intrigado, porque as pessoas, muitas vezes, vêem a religião como oposição às regras. Não, a religião nos faz livres. É o diabo que nos a impõe, a ponto de perdemos a oportunidade de escolher. Se nós não escolhemos na hora certa, ficamos condenados a levar aquilo que sobrou. Por isso, São Paulo diz: "Você, que optou pela luz, viva na luz". A Palavra de Deus nos ajuda a escolher o certo.

Deus não nos condena; Ele nos propõe o certo. São as nossas escolhas que vão definir se seremos felizes ou não. Aonde você estiver, precisará ser luz, testemunhar Jesus.

Não há nenhum lugar neste mundo que não precise de luz, principalmente nestes dias de festas, no qual as pessoas se esquecem de ser elas mesmas. Cada vez que eu me convenço de que o Cristianismo é vivo com autenticidade, eu preciso ser cristão onde for. Assim como uma mãe não pode dizer ao filho: "Vou deixar de ser sua mãe por quatro dias", um cristão também precisa ser cristão em todos lugares e em todas as situações da sua vida. Cristianismo não é uma couraça que você coloca e tira.

Não dá para viver o Cristianismo sem zelo. As pessoas querem banalizar o que sou, o meu ministério. Há 13 anos trabalho com a música católica, mas agora resolveram falar de mim diabolicamente. Então, eu falo: "Cuidado com o que você fala, porque tenho zelo com o meu ministério".

Hoje, vejo este lugar lotados de jovem, aqui é um território que não lhe oferecerão camisinha, porque nós não estamos preocupados com a genitalidade, mas com a totalidade que você é. A camisinha não lhe protege da prostituição, da solidão de Quarta-feira de Cinzas, de você se sentir usada. Deus entra na nossa vida e coloca bom gosto.

'Precisamos ser testemunhas daquilo que vivemos e mostrar às pessoas que somos seguidores de Cristo'

Nosso testemunho precisa passar por tudo. Deus nos educa para as boas escolhas da vida e, todas as vezes que esquecemos disso, passamos a viver uma religião de preceitos. Mas não dá para viver de regras e restrições, porque, se vivermos assim, um dia "a casa cai" como uma casa construída na areia.

Não existe Cristianismo sem escolhas, pois as nossas angústias nascem delas. Você tem duas possibilidades: a angústia ou o seu coração. O Espirito Santo nos ilumina e nos faz questionar se algo é luz ou trevas.

A pior coisa que nos acontece é quando colocamos a nossa oportunidade de escolhas na vida do outro.

Vocês mães, têm ensinado seus filhos a escolher a luz? As maiores referências que um filho tem são os pais. Agora, se eles não têm a influência do pai ou da mãe, ele vai encontrar outras.

Um exemplo disso são os jovens nas faculdades com aqueles trotes. Que universidade é essa que um momento de vitória é reduzido a nada. Ali, as pessoas banalizam o que o outro é.

Educar-se no Cristianismo não é apenas ler a Bíblia para o filho, mas minuciar, em gestos, o que o Evangelho ensina. Educar bem uma criança é prevenção, para que você não venha que bater em seu filho mais tarde.

Você não pode permitir que a luz que foi acesa em você viva nas trevas; luz é para iluminar e nós não temos o direito de apagá-la. Assim como não temos o direito de dizer a um filho: "Hoje, não sou sua mãe". Mãe é mãe e precisa saber quem ela é. Se nos esquecemos de quem somos, as pessoas fazem de nós o que querem.

O bem a ser feito, às vezes, parece não ser tão bom. Se formos a um supermercado, encontramos uma ricota sem graça, mas também vemos um queijo gordo e ficamos com água na boca, porque o queijo é mais gostoso. Porém, o queijo gordo faz mal à nossa saúde, ele é o diabo.

Aqui na Canção Nova, não tiramos as bebidas ou as drogas das suas coisas. O que nós queremos, é fazer você entender as escolhas que você faz.

Deus não está preocupado com o sapato que você usa, mas com o seu coração. O que vai fazer a diferença na sua vida são as luzes que você acende na sua vida e na vida dos outros. Pare de se preocupar com as coisas pequenas, Deus quer o seu coração. Não se preocupe com os artifícios, transforme o que é essencial. Deus não pode fazer absolutamente nada com as nossas obras se Ele não puder mudar o nosso coração. Deus quer o nosso coração.

Você não precisa fazer esforço para seu filho gostar de chocolate, mas como é difícil fazê-lo gostar da rúcula. É mais difícil, porque o saudável nos cobra disciplina.

"Desperta tu que dormes!" 'Ser cristão não é moleza; se você quer moleza, não opte pelo Cristianismo.'

O caminho de Deus são todos feitos de escolhas e, em cada opção certa, nós iluminamos quem somos.

Quando somos traídos, precisamos ter a coragem de olhar nos olhos do traidor e dizer-lhe que você não me trai mais.

Tome o território da sua vontade, Deus nos fortalece para escolhermos o bem. Em qual território você precisa que seja derramado o poder de Deus? Escolha, hoje, a melhor parte. Somos filhos do céu.



Transcrição e adaptação: Elcka Tôrres
22/02/2009 - 11h15min

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Fonte: Eventos Canção Nova

Carnaval Canção Nova - Homilia

Reconhecer-se indigente


Quanta sabedoria quando o salmista coloca a necessidade da cura para o pecado.

Há um cuidado humano com a saúde, no que comemos, como vivemos, como forma de prevenir as enfermidades nessa responsabilidade que cabe a mim e a você na observância da vida, no respeito ao organismo que somos. Não somos um mecanismo, somos organismo e precisamos respeitá-lo. Se não o fazemos, o levamos a falência antes da hora. Definhamos antes da hora.

E aqui, o salmista pede a Deus que lhe cure. Considerando o pecado como enfermidade.Da mesma forma como nós interpretamos o cuidado da saúde com o corpo, descobrimos que a vida espiritual precisa seguir as mesmas regras.

O corpo é o território do sagrado.E como medicamos o corpo para que ele seja curado, o salmista nos inspira e nos ensina que quando Deus nos perdoa, encontramos o processo de cura.

Curai-me Senhor pois pequei contra vós.

O perdão de Deus, o reconhecimento de Sua misericórdia, é um soro que colocamos em nossas veias todos os dias.

De vem em quando eu preciso bater na porta das pessoas que me amam e dizer: “Me ajuda a chegar até Deus? Porque está difícil sozinho.” A possibilidade de estar com vocês aqui, é um soro que entra na minha veia.

Deus não é sim e não. Deus é apenas 'sim'. Aqui você pode decidir-se pelo processo de reconhecer que há um Deus que nos ama de maneira única, e que não há nenhuma realidade humana que possa ser capaz de ofuscar e ser maior do que esse amor.

O evangelho de hoje é uma prova concreta de que Deus continua apostando em Sua misericórdia conosco. Você que ama, eu pergunto: pode haver algo mais curativo em nossas vidas, do que amar e ser amado?

O ódio nos rouba, o amor nos devolve. Quando você não tem muitos motivos para se alegrar, e tem que lidar com suas fragilidades e não sabe o que fazer com elas, você não procura seus companheiros de copo, ou de fofoca. Você vai querer bater na porta de alguém que verdadeiramente vai saber olhar para suas indigências do jeito que elas merecem ser olhadas. Por que o primeiro milagre que Jesus faz de perdoar pecados, também participamos na dimensão humana.

A cura que muitas vezes nos falta na vida, não é o perdão divino. Deus não tem nenhum problema em nos reconciliar com Ele. É especialidade dEle perdoar, compadecer-se, mas ainda não é minha, nem a sua.

Quantas vezes você sofreu na pele a vergonha de ter que mostrar quem você era para alguém que achava que te amava? E você errou?

Não tenho tido medo de ser fraco, indigente. E acolho como dom de Deus, porque a concretização do evangelho de hoje só acontecerá em nós no momento que a gente reconhecer que de vez em quando precisamos ser colocados na maca para que alguém nos leve na presença do Senhor.

Por que nos esconderam tanto tempo que Deus prefere os piores? E que no acolhimento da fraqueza podemos chegar a algum lugar, e que o contrário não? Nós não podemos negligenciar a oportunidade de dizer isso a ninguém.

Somos indigentes. É o que você precisa ver em mim, em cada um de nós, no seu pároco, nas pessoas que você diz amar. O amparo humano que nos anuncia o amparo de Deus. Deus segurou na minha mão e ele tinha rosto de gente.

Não temos outra coisa a anunciar nessa vida a não ser a misericórdia de Deus. Nada do teu passado pode ser maior do que força do futuro de Deus. Nada.

Falar do perdão de Deus na nossa vida, é falar do perdão que nós nos entregamos o tempo todo. A primeira parte desse milagre, que foi fazer a voltar a andar o que era paralítico, foi o Senhor perdoar o pecado dele. Quantas vezes na vida ficamos paralisados? Não vamos pra lugar algum. E quando investigamos a paralisia, vemos que em algum momento não soubemos nos reconciliar com aquilo que a gente é. A gente se projetou melhor do que era, ou o pior do que era e a gente acabou não sendo nada.

Quantas vezes você se estragou porque não foi capaz de se perdoar? Não foi capaz de usar de misericórdia consigo mesmo? Não reconheceu que estava indigente, ou que na corrida chegou em último lugar.

Como é duro ser o último. Agora, quando estamos no pódio é fácil achar quem nos ama. Alguma coisa dentro de nós pede para que o fracasso do outro seja ridicularizado. Isso é demoníaco. Nós não sabemos lidar com o fracasso dos outros. O mais desconcertante disso tudo é que Jesus ficava de olho em quem chegava por último, e deles fazia seguidores.

Pode ser que a gente esteja tentado a olhar só o 'batalhão de frente'. Jesus ficava de olho para ver quem estava em último e o trazia para dentro. Por isso o cristianismo é anuncio de salvação.

O presente é para todos. Só basta querer receber. Nisso está a dimensão humana da salvação: eu quero, aceito, me disponho, e recebo aquilo que Deus quer me ofertar. Eu quero essa participação direta nesse presente que Deus me oferece.

Por isso, não olhe para trás. Não preste atenção no que não deu certo. Não ponha seu empenho no que você não tem. Deus só pode trabalhar naquele que se reconhece indigente.

Qual é pior doente? É aquele que não quer ser tratado.

Aqui está a origem de toda enfermidade: o pecado que não recebe cura.

Como tratamos o corpo, precisamos tratar o espírito, a alma.

Não podemos pensar na nossa indigência fora da misericórdia de Deus. Ele nos quer arrependidos dos erros e prontos para começarmos de novo.

Deus nos ama, mesmo na indigência. Não neglicencie a oportunidade de trazer Jesus ao coração das pessoas que você encontrar na sua vida.

A face mais sedutora de Deus é a misericórdia.

Transcrição e adaptação: Nara Bessa
22/02/2009 - 16h30min

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Fonte: Eventos Canção Nova

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Amizade Amadurecida


“Uma das características da infância é a incapacidade de dividir coisas. Uma criança não pode dividir porque não se possui, porque ainda não sabe o que ela é. Você começa a identificar a maturidade, a partir do momento que uma criança consegue perceber as regras de um joguinho.

A maturidade faz parte de um processo. Em um processo não podemos queimar etapas. Ele é lento, chato e demorado. Uma criança passa por um momento de amadurecimento a partir do momento que começa a brincar.

A maturidade acontece, quando tomamos posse do que nós somos, para aí então poder nos dividir com os outros. Isso faz parte do processo de maturidade.

Não nascemos amando, pelo contrário, queremos ter a posse dos outros. Essa é a forma de amar da criança, pois ela não consegue pensar de maneira diferente. Ela não consegue entender que o outro não é ela. Quantas pessoas já adultas pensam assim, trata-se da incapacidade de amar, falta de maturidade.

Todos os encontros de Jesus levam a implantação do Reino de Deus. Mas só pode implantar esse reino quem é adulto, que já entende que só se começa a amar a partir do momento, que eu não quero mudar quem eu amo.

Geralmente quando tememos alguém ruim ao nosso lado, é porque nos reconhecemos naquela pessoa. Jesus não tinha o que temer porque era puramente bom, por isso contagiava os que estavam ao seu lado.

Na maturidade de Jesus você encontra a capacidade imensa de amar o outro como ele é. Amar significa: amar o outro como ele é. Por isso quando falamos em amar os outros, podemos perceber o quanto deixamos de ser crianças. Devemos nos questionar a todo o momento quanto a nossa maturidade.

A santidade começa na autenticidade. Por isso Jesus nos pede para ser como as crianças, que são verdadeiras e simples. É nisso que devemos manter da nossa infância e não a forma de possuir as coisas para si.

Você tem condições para perceber a sua maturidade. É só observar se você é obediente mesmo quando não há pessoas ao seu redor. Você não precisa que ninguém te observe, pois você já viu aquilo como um valor.

Pessoas imaturas sofrem dobrado. Pessoas imaturas querem modificar os fatos, pessoas maduras deixam que os fatos os modifiquem. A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Um imaturo ganha um limão e o chupa fazendo careta. O maduro faz uma limonada com o limão que ganhou.

Muitas vezes os nossos relacionamentos de amizade são uns fracassos porque somos imaturos. Amigos não são o que imaginamos, mas o que eles são e com todos os defeitos. Amizade é processo de maturidade que nos leva ao verdadeiro encontro com as pessoas que estão ao nosso lado. Elas têm todos os defeitos, mas fazem parte da nossa vida e não a trocamos por nada deste mundo. Isso porque temos alma de cristão e aquele que tem alma de cristão não tem medo dos defeitos dos outros, porque sabe que aqueles defeitos não serão espelhos para nós, mas seremos um instrumento de Deus para ele superar esse defeito.

Padre só pode ser padre a partir do momento que é apaixonado pelos calvários da humanidade.

Se você não consegue lidar com os limites dos outros, é porque você não consegue lidar com os seus limites. A rejeição é um processo de ver-se.

Toda vez que eu quero buscar no outro o que me falta, eu o torno um objeto. Eu posso até admirar no outro o que eu não tenho em mim, mas eu não tenho o direito de fazer do outro uma representação daquilo que me falta. Isso não é amor, isso é coisa de criança.

O anonimato é um perigo para nós. É sempre bom que estejamos com pessoas que saibam quem somos nós e que decisões nós tomamos na vida. É sempre bom estarmos em um lugar que nos proteja.

Amar alguém é viver o exercício constante, de não querer fazer do outro o que a gente gostaria que ele fosse. A experiência de amar e ser amado é acima de tudo a experiência do respeito.

Como está a nossa capacidade de amar? Uma coisa é amar por necessidade e outra é amar por valor. Amar por necessidade é querer sempre que o outro seja o que você quer. Amar por valor é amar o outro como ele é, quando ele não tem mais nada a oferecer, quando ele é um inútil e por isso você o ama tanto. Na hora que forem embora as suas utilidade, você vai saberá o quanto é amado.

Tudo vai ser perdido, só espero que você não se perca. Enquanto você não se perder de si mesmo você será amado, pois o que você é significa muito mais do que você faz.

O convite da vida cristã é esse: que você possa ser mais do que você faz!



Transcrição, áudio e fotos: Renan Félix
Canção Nova - Homilia PHN - Julho 2007



quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Momento de Oração - Corpus Chrsti 2006

Momento de oração durante o show realizado no acampamento de Corpus Christi, em 16/06/2006, na sede da comunidade Canção Nova em Cachoeira Paulista (SP).




"Às vezes na minha vida, a minha luta é por fazer valer a verdade de cada um. Eu não acredito que seja uma pretensão. É um desejo.

É o desejo que eu tenho de passar pela vida dos outros para que, naquele momento em que eu passo como padre, como homem, como amigo, como irmão, como filho... meu desejo é que você esqueça as mentiras dos seus sentimentos. Que você se prenda na única verdade que nessa vida ainda vale a pena: Deus ainda acredita em você.

Porque pode ser que o seu sentimento não lhe faça acreditar nisso. Pode ser que o seu sentimento seja contrário a isso. E aí está o poder do inimigo de Deus em nós, no momento quando ele faz a gente ter um sentimento de rejeição àquilo que a gente é. E ninguém pode ser feliz rejeitando-se. Ninguém pode amar o outro sem antes se amar, sem antes se recolher, sem antes juntar os cacos, sem antes juntar os pedaços... e fazer o vaso ser restaurado. Quebrado. Mas restaurado. É o que Deus me convida a ser e é o que Deus lhe convida a ser.

E hoje, se você me permite, durante esse tempinho em que nós vamos passar juntos aqui, você aqui presente, você que me assiste pela TV Canção Nova... se você me permite, nós entraremos na sua vida, nós entraremos no seu coração, retirando as sandálias dos meus pés, porque o solo que eu agora piso é sagrado. Você é sagrado. E eu quero olhar cada um de vocês de um jeito único, do mesmo jeito que Jesus enxerga. Porque Jesus não vê multidão, Jesus vê pessoas."


Padre Fábio de Melo
16/06/2006


Fonte: Canção Nova

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal e Mudas de Alface


A manhã chuvosa parecia costurada nos embaraços de uma noite mal dormida. O vulto de mulher prateado pelos raios de um sol recém nascido recolhia do tempo as agruras de saber-se temporário , imperfeito, afeito aos desajustes de um amor que adormeceu , mas que não desaprendera de amanhecer.

Era um corpo de dor, de menstruadas esperanças, de saudades e partos. Corpo de mãe , corpo de cumprir oficio de curar joelhos esfolados, de dar banhos que tinham o poder de lavar corpos e almas num mesmo acontecimento. Corpo de amamentar filhos que crescem.

Aquela mulher e aquelas manhãs de dezembro. As recordações de seu tempo de menina, pobreza reconhecida, trazida na cara e denunciada pela moldura de olhos que não sabiam mentir.

O plantio programado, compromisso que nem mesmo a dor acontecida nas recentes horas poderia adiar, tinha ares de ritual religioso. A sementeira ao lado, moldada numa caixa de papelão resistente, sobre o canteiro que nasceu de suas mãos pequenas, esperava pela oportunidade de cumprir no tempo o destino de dar continuidade à obra da criação.

Morrer e viver são atos que se conjugam sem pressa. A mulher sabia de tudo isso. As mudas miúdas também. Dotadas de sabedoria vegetal, cresciam ao seu tempo com a mesma simplicidade que é própria de quem não procura outro destino senão o seu.

Aquela mulher sabia mais. As mudas não mudam. São sempre as mesmas desde o tempo de sua mãe. Oficio aprendido que se estende no tempo, feito consumação de uma despedida que se cumpre aos poucos, bem aos poucos.

Mudas de alface estão carregadas de sentido. Nelas, prepara-se o futuro que afugenta a fome, traz vibrações ao modo de carecer. Recordo-me com saudade. O tempo era de chuvas. Jabuticabeiras explodiam. Pequenos frutos pendurados em seu corpo de árvore-mãe, tal qual a minha mãe e seus meninos pendurados na cintura, entrelaçados nas pernas e puxando seus braços.

Dezembro tinha cores e histórias diferentes. Vitrines iluminadas, cartões de ocasião sendo preparados pela minha irmã, para que mesmo com simplicidade pudéssemos desejar votos de felicidades.

Presépio sendo retirado da caixa, árvores coloridas de bolas vermelhas, anunciando que nossa pobreza seria ainda mais exposta. Mas não havia problema. Nossa árvore, mesmo tão pobre, já era nossa alegria. As jabuticabeiras nos curavam de tudo...

Minha mãe e sua capacidade de replantar o mundo a partir de mudas de alface era o símbolo mais vivo de nosso Natal. Com seu jeito simples e hábitos rotineiros, ela condensava todas as virtudes que o acontecimento nos sugeria. “O menino Jesus é quem merece presente neste dia!”, ensinava-nos como se quisesse modificar a ordem do mundo. E assim acreditávamos.

Nossos presentes eram poucos. Quase nenhum. Só mesmo para não passar em branco, mas o mais importante nós não deixávamos de receber. O sorriso farto, a oração em família, a missa do galo e o nosso Natal já estava completo.

Aquela mulher nos fazia esquecer o que não tínhamos. Transplantava-nos, como fazia com as mudas de alface. Deixávamos o chão estreito da sementeira e caiamos com nossas raízes nos canteiros fartos da simplicidade que ela sabia construir.

E assim era o nosso Natal. Um acontecimento para nunca mais esquecer.A você, que ao longo deste ano buscou ser mais feliz a partir de minhas palavras, aproveito para desejar um Natal cheio de alegrias, simplicidade e acontecimentos que mereçam ser lembrados.



Pe Fábio de Melo
(Revista "Ir ao Povo", 12/2007)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Semeador, a Semente e os Solos

Esta é uma das três únicas parábolas registradas em mais do que dois evangelhos, e também é uma das únicas que Jesus explicou especificamente. Precisamos meditar cuidadosamente sobre essa história.

A história em si é simples:

"Eis que o semeador saiu a semear. E ao semear, uma parte caiu à beira do caminho; foi pisada, e as av es do céu a comeram. Outra caiu sobre a pedra; e, tendo crescido, secou por falta de umidade. Outra caiu no meio dos espinhos; e, estes, ao crescerem com ela, a sufocaram. Outra, afinal, caiu em boa terra; cresceu e produziu a cento por um" (Lucas 8:5-8).

A explicação de Jesus é também fácil de entender:

"A semente é a palavra de Deus. A que caiu à beira do caminho são os que a ouviram; vem, a seguir o diabo e arrebata-lhes do coração a palavra, para não suceder que, crendo, sejam salvos. A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por algum tempo e, na hora da provação, se desviam. A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer. A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração retêm a palavra; estes frutificam com perseverança" (Lucas 8:11-15).

Alguém ensina as Escrituras a várias pessoas; a resposta dessas pessoas depende do estado do coração delas, isto é, de sua atitude.

(e você... já cuidou do seu solo hoje?)


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mensagem de Natal



NATAL SEM O PAPAI NOEL...

Estou preparando a minha árvore de Natal. Quero que ela seja viva, mas não quero que seja exterior. Eu a quero dentro de mim. Tenho medo das exterioridades. Elas nos condenam. Ando pensando que o silêncio do interior é mais convincente que o argumento da palavra.

Quero que minha árvore seja feita de silêncios. Silêncios que façam intuir felicidade, contentamento, sorrisos sinceros.

Neste Natal não quero mandar cartões. Tenho medo de frases prontas. Elas representam obrigação sendo cumprida. Prefiro a gratuidade do gesto, o improviso do texto, o erro de grafia e o acerto do sentimento. A vida é mais bonita no improviso, no encontro inesperado, quando os olhares se cruzam e se encontram.

Quero que minha árvore seja feita de realidades. Neste Natal quero descansar de meus inúmeros planos. Quero a simplicidade que me faça voltar às minhas origens. Não quero muitas luzes. Quero apenas o direito de encontrar o caminho do presépio para que eu não perca o menino Jesus de vista. Tenho medo de que as árvores muito iluminadas me façam esquecer o dono da festa.

Não quero Papai Noel por perto. Aliás acho essa figura totalmente dispensável! Pode ficar no Pólo Norte desfrutando do seu inverno. Suas roupas vermelhas e suas barbas longas não combinam com o calor que enfrentamos nessa época do ano. Prefiro a presença dos pastores com seus presentes sinceros.

Papai Noel faz muito barulho quando chega. Ele acorda o menino Jesus, o faz chorar assustado. Os pastores não. Eles chegam silenciosos. São discretos e não incomodam...
Os presentes que trazem nos recordam a divindade do menino que nasceu. São presentes que nos reúnem em torno de uma felicidade única. O ouro que brilha, o incenso que perfuma o ambiente e a mirra com suas composições miraculosas.

O papai Noel chega derrubando tudo. Suas renas indisciplinadas dispersam as crianças, reiram a paz dos adultos. Os brinquedos tão espalhafatosos retiram a tranquilidade da noite que deveria ser silenciosa e feliz. O grande problema é que não sabemos que a felicidade mais fecunda é aquela que acontece no silêncio.

É por isso que neste Natal eu não quero muita coisa. Quero apenas o direito de recolher o pequenino menino na manjedoura... Quero acolhê-lo nos braços, cantar-lhe canções de ninar, afagar-lhe os cabelos, apertar-lhe as bochechas, trocar-lhe as fraldas para que não tenha assaduras e dizer nos seus ouvidos que ele é a razão que me faz acreditar que a noite poderá ser verdadeiramente feliz.

Neste Natal eu não quero muito. Quero apenas dividir com Maria os cuidados com o pequeno menino. Quero cuidar dele por ela. Enquanto eu cuido dele, ela pode descansar um pouquinho ao lado de José. Ando desfrutando nos últimos dias o desejo mais intenso de que a vida vença a morte.

Talvez seja por isso que ando desejando uma árvore invisível. O único jeito que temos de vencer a morte é descobrindo a vida nos pequenos espaços. Assim vamos fazendo a substituição. Onde existe o desespero da morte eu coloco o sorriso da vida.

Façam o mesmo!

Descubram a beleza que as dispersões deste tempo insistem em esconder. Fechem as suas chaminés. Visita que verdadeiramente vale à pena chega é pela porta da frente.

Na noite de Natal fujam dos tumultos e dos barulhos. Descubram a felicidade silenciosa. Ela é discreta, mas existe! Eu lhes garanto!

Não tenham a ilusão de que seu Natal será triste porque será pobre. Há mais beleza na pobreza verdadeira e assumida que na riqueza disfarçada e incoerente. O que alegra um coração humano é tão pouco que parece ser quase nada. Ousem dar o quase nada. Não dá trabalho, nem custa muito...
E não se surpreendam, se com isso, a sua noite de Natal tornar-se inesquecível.


Padre Fábio de Melo
01/12/2008