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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os Girassóis e Nós...

Eles são submissos. Mas não há sofrimento nesta submissão. A sabedoria vegetal os conduz a uma forma de seguimento surpreendente. Fidelidade incondicional que os determina no mundo, mas sem escravizá-los.

A lógica é simples. Não há conflito naquele que está no lugar certo, fazendo o que deveria. É regra da vida que não passa pela força do argumento, nem tampouco no aprendizado dos livros. É força natural que conduz o caule, ordenando e determinando que a rosa realize o giro, toda vez que mudar a direção do Regente.

Estão mergulhados numa forma de saber milenar, regra que a criação fez questão de deixar na memória da espécie. Eles não podem sobreviver sem a força que os ilumina. Por isso, estão entregues aos intermitentes e místicos movimentos de procura. Eles giram e querem o sol. Eles são girassóis.

Deles me aproximo. Penso no meu destino de ser humano. Penso no quanto eu também sou necessitado de voltar-me para uma força regente, absoluta, determinante. Preciso de Deus. Se para Ele não me volto corro o risco de me desprender de minha possibilidade de ser feliz. É Nele que meu sentido está todo contido. Ele resguarda o infinito de tudo o que ainda posso ser. Descubro maravilhado. Mas no finito que me envolve posso descobrir o desafio de antecipar no tempo, o que Nele já está realizado.

Então intuo. Deus me dá aos poucos, em partes, dia a dia, em fragmentos.

Eu Dele me recebo, assim como o girassol se recebe do sol, porque não pode sobreviver sem sua luz. A flor condensa, ainda que de forma limitada, porque é criatura, o todo de sua natureza que o sol potencializa.

O mesmo é comigo. O mesmo é com você. Deus é nosso sol, e nós não poderíamos chegar a ser quem somos, em essência, se Nele não colocarmos a direção dos nossos olhos.

Cada vez que o nosso olhar se desvia de sua regência, incorremos no risco de fazer ser o nosso sol, o que na verdade não passa de luz artificial.

Substituição desastrosa que chamamos de idolatria. Uma força humana colocada no lugar de Deus.

A vida é o lugar da Revelação divina. É na força da história que descobrimos os rastros do Sagrado. Não há nenhum problema em descobrir nas realidades humanas algumas escadarias que possam nos ajudar a chegar ao céu. Mas não podemos pensar que a escadaria é o lugar definitivo de nossa busca. Parar os nossos olhos no humano que nos fala sobre Deus é o mesmo que distribuir fragmentos de pólvora pelos cômodos de nossa morada. Um risco que não podemos correr.

Tudo o que é humano é frágil, temporário, limitado. Não é ele que pode nos salvar. Ele é apenas um condutor. É depois dele que podemos encontrar o que verdadeiramente importa. Ele, o fundamento de tudo o que nos faz ser o que somos. Ele, o Criador de toda realidade. Deus trino, onipotente, fonte de toda luz.

Sejamos como os girassóis...

Uma coisa é certa. Nós estamos todos num mesmo campo. Há em cada um de nós uma essência que nos orienta para o verdadeiro lugar que precisamos chegar, mas nem sempre realizamos o movimento da procura pela luz.

Sejamos afeitos a este movimento místico, natural. Não prenda os seus olhos no oposto de sua felicidade. Não queira o engano dos artifícios que insistem em distrair a nossa percepção. Não podemos substituir o essencial pelo acidental. É a nossa realização que está em jogo.

Girassol só pode ser feliz se para o Sol estiver orientado. É por isso que eles não perdem tempo com as sombras.

Eles já sabem, mas nós precisamos aprender.


Padre Fábio de Melo
04/08/2009

terça-feira, 2 de junho de 2009

O peso que a gente leva...

O perigo da viagem mora nas malas. Elas podem nos impedir de apreciar a beleza que nos espera. Experimento na carne a verdade das palavras, mas não aprendo. Minhas malas são sempre superiores às minhas necessidades. É por isso que minhas partidas e chegadas são mais penosas do que deveriam.

Ando pensando sobre as malas que levamos...

Elas são expressões dos nossos medos. Elas representam nossas inseguranças. Olho para o viajante com suas imensas bagagens e fico curioso para saber o que há dentro das estruturas etiquetadas. Tudo o que ele leva está diretamente ligado ao medo de necessitar. Roupas diversas; de frio, de calor – o clima pode mudar a qualquer momento! – remédios, segredos, livros, chinelos, guarda chuva – e se chover? –, cremes, sabonetes, ferro elétrico – isso mesmo! – Microondas? – Comunique-me, por favor, se alguém já ousou levar.

O fato é que elas representam nossas inseguranças. Digo por mim. Sempre que saio de casa levo comigo a pretensão de deslocar o meu mundo. Tenho medo do que vou enfrentar. Quero fazer caber no pequeno espaço a totalidade dos meus significados. As justificativas são racionais. Correspondem às regras do bom senso, preocupações naturais para quem não gosta de viver privações.

Nós nos justificamos. Posso precisar disso, posso precisar daquilo...

Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado?

As perguntas são muitas... E se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira vez?

Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada.

É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence.

E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É conseqüência natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou.

É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro.

Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de nossas lamúrias... Hospitais, asilos, internatos...

Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar.

Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.

Padre Fábio de Melo
02/06/09


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ressurreição, tempo de misericórdia

O tempo é de ressurreição. Já não podemos mais ouvir os gritos do calvário, o movimento curioso de quem desejava a tragédia, a morte pública e cruel. O que temos é o jardim vistoso sugerindo primaveras. A vida revestida de cores mansas como se uma chuva miúda devolvesse aos poucos o frescor que combina com as manhãs.

O que me instiga em tudo isso é a falta de provas para o fato. O sepulcro estava aberto, vazio. Mas isso não era o suficiente para que a ressurreição fosse proclamada. Alguém poderia ter roubado o corpo. Não faltariam incrédulos para essa suspeita.

A certeza da ressurreição não consiste em provas materiais para o fato. A imposição dessa verdade não passa pela materialidade do mundo, nem tampouco pode ser explicada através das claras regras que foram postuladas por nossa razão cartesiana.

Estamos falando de algo maior, superior. O que despertou o grito da ressureição foi o encontro dos olhares de quem havia estado com Ele. Foi o momento em que João reconheceu em Pedro a presença do Mestre. Resquícios esquecidos na alma, doação existencial que o configurava de forma renovada, como se tivesse nascido de novo.

"Ele está no meio de nós!" - A voz proclama. Grita o que ainda não compreende. Grita o que intui em mistério, o que descobre aos poucos. A alma reconhece na carne o milagre da continuidade. Os desdobramentos da Eucaristia celebrada dias antes tornam-se evidentes. João vê na carne de Pedro a carne de Jesus. É o mesmo sangue, é a comunhão estabelecida. O sangue jorrado na cruz encontrou novas veias e por elas corre.

É o olhar epifânico ardendo como a sarça ardeu diante dos olhos de Moisés. Sarça humana, pupilas dilatas de alegria, incapacitadas de esconderem os olhos que estavam por trás dos olhos de Pedro. Olhos que deixaram de brilhar no calvário, mas que agora são reacendidos nos olhos do amigo que ficou. O apóstolo é a continuidade do Mestre. Simbiose que faz o agir ser o mesmo, como se uma costura atasse a vida de Pedro à vida de Cristo.

É o ser emprestado em sacramento, força que o altar atualiza e que a alma recebe prostrada, generosa. A sobrevivência do Cristo passa pela alma que o aceita. É preciso acolher o dom de ser ressurreto. Passa pela nossa carne esta mística que nunca terá fim. Não aceitá-la é o mesmo que viver a privação da felicidade. Não é possível ser feliz fora desta dinâmica. As religiões nos ensinam. É preciso aprender. O altar estendido é o banquete do encontro. O Cristo sentado à mesa nos ensina de forma simples e duradoura que é preciso crescer na ressurreição. Ele nos dá de comer. "Isto é o meu corpo". Ele nos dá de beber. "Isto é o meu sangue".

É Nele que nos transformamos. Quando por Ele nos decidimos, Dele nos tornamos continuidade. Cada um ao seu modo vive o seu processo. É estrada humana também. Jesus nos ensinou a humanidade antes de nos propor o céu. Por isso o aperfeiçoamento de tudo o que é humano é exercício de santidade. O pecado nos mata, mas a ressurreição nos socorre.

Viver e morrer são dinâmicas inevitáveis. Cada um sabe o tanto que morre. Cada um sabe o tanto que vive. As escolhas estão por toda parte.

Mas o Cristo está diante de nós. Em suas mãos não há outra coisa senão a sua Misericórdia. O motivo de sua morte é o motivo de nossa vida. Ele morreu porque quis nos ensinar que a justiça divina compreende também a sua capacidade de amar. Ele nos deu o direito de sermos íntimos do Pai. Ensinou caminhos simples, diretos, sem rodeios.

Ensinou que podemos ser santos, mesmo sendo proprietários de tantos defeitos. Ensinou que há sempre uma esperança escondida dentro de nós, e que procurar por ela é um jeito bonito que temos de colocar os nossos passos nas marcas de seus pés.

Neste tempo de Ressurreição queiramos a sua misericórdia.

Eu quero. Queira também. Eternamente.



Padre Fábio de Melo

22/04/2009



sexta-feira, 27 de março de 2009

Quinta, um poeta de primeira.

O nome dele é Marcelo Quintanilha. Os amigos o chamam de Quinta.
Ele chegou em minha vida há quase uma década. Veio no formato de um cd. A voz bonita, afinada e levemente tocada por uma rouquidão charmosa me chamou atenção.
A voz não cantava qualquer coisa. Cantava versos tocados por sensibilidade rara. O cd começava com esta preciosa expressão: "Tava com dó de mim. Tava só, tava sim, tava em São Salvador. Tava são, mas não salvo da dor. Que não deixava eu só, tava assim como um nó, um nó dentro de mim.”
Foi uma descoberta surpreendente. Em pouco tempo as músicas de Marcelo Quintanilha estavam todas ressonantes dentro de mim. O cd se se tornou meu prazer diário, e também minha recomendação aos amigos que sei que apreciam a boa música popular brasileira.
O tempo passou. Tentei descobrir tudo o que pude sobre o jovem compositor. À distância, mesmo sem saber, o Quinta me redimia com sua arte. Não foram raras as vezes que sua música me fez viver a mesma experiência dos versos que citei, de me deixar são, mesmo nos braços da dor. A arte nos alivia o peso da vida. Ela é mãe que recobre o filho com proteção delicada, para que o peso da vida não venha nos danificar as feições.
A arte tem o dom de expiar pecados. Ela nos devolve a coragem no momento em que a fragilidade insiste em soprar em nossos ouvidos a frase da desistência, do abandono da luta.
Nada neste mundo é por acaso. No mês passado, tive o imenso prazer de conhecer Vânia Abreu, uma das vozes mais bonita que a Bahia já nos ofereceu. Irmã de Daniela Mercury, Vânia traz na alma a mesma força da irmã, só que resolveu colocar a força nos caminhos do canto calmo. Sua opção musical lhe fez cantar de maneira preciosa os sentimentos do mundo, e com a mesma competência e vigor de Daniela, Vânia empresta a alma à música, em outros formatos.
Minha surpresa foi grande. Vânia era esposa de Marcelo, o Quinta que me fez são, mas não salvo da dor.
De um encontro nasceu o outro. Quando dei por mim estava na casa do casal, que na sonolência de uma madrugada me recebeu para um jantar. À porta estavam eles. A dona da voz e o dono da música. Donos de tantas coisas. Donos de tantos dons, de tantos mistérios, de tantos encantos, de tantos sonhos.
Eu me senti um menino em noite de Natal. O presente era grande demais para ser aberto de uma vez só. Estava diante de Quintanilha, o compositor que foi divisor de águas no oceano de minha musicalidade. Estava diante da voz rouca, aprimorada, do administrador dos versos que tantas vezes me devolveu o dom de sofrer de alegrias.
Era quarta feira, mas ele já era “Quinta”. Um homem à frente de seu tempo. Uma sensibilidade à frente de todas as outras. Um homem, compositor, pai, amigo, cantor que já pisa o chão da primavera, mesmo quando o frio nos abate.
Ele, Quinta de tantos quintais. Quinta de tantas semanas. Quinta de tantos quintetos! Ele e a mística da quinta-feira santa, momento em que Cristo lava os pés de seus discípulos e os oferece a eucaristia como sacramento da continuidade.
Marcelo Quintanilha é homem eucarístico. Ele se reparte o tempo todo e se oferece como alimento para a humanidade. Basta chegar perto. Sua arte é seu ofício. É nele e através dele que o Quinta se desdobra em meses e anos. Duração de um tempo que não cabe no tempo, porque pertence à ordem de tudo o que nos toca e nos faz esquecer que o relógio existe. Na canção "Nina" ele canta a alegria de ver a filha chegar. Eu ouvi a canção naquela madrugada, no improviso de voz e violão, e mesmo sem nunca ter experimentado a paternidade biológica, pude sorver o que é a alegria de embalar um filho nos braços...
Poeta bom é assim. Ele nos dá o que nunca foi nosso. Ele é eucarístico. Ele desdobra a vida. Ele endireita os caminhos. Ele nos deixa sãos, mesmo que não estejamos salvos da dor.
Na quarta do meu tempo o Quinta chegou pra ficar.

Padre Fábio de Melo
26/03/2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

Uma pipa no céu...

A vida exige leveza, assim como a viagem. A estrada fica mais bonita quando podemos olhá-la sem o peso de malas nas mãos.

Seguir leve é desafio. Há paradas que nos motivam compras, suplementos que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos se o teremos.

Temos a pretensão de preparar o futuro. Eu tenho. Talvez você tenha também. É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a ocupação seja demasiada. Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me esqueça de ficar no hoje da vida.

Os pesos nascem desta articulação. Coisas do passado, do presente e do futuro. Tudo num tempo só.

Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que não sobe ao céu. Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. Mexe na estrutura, diminui o tamanho da rabiola, e nada. O pequeno recorte de papel colorido, preso na estrutura de alguns feixes de bambú retorcidos se recusa a conhecer as alturas.

O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for feita para voar. Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa, e para que serve. Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu lado. O que ele agora precisa é repetir o gesto. Ele tenta, mas a pipa está momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.

Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca soluções. Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. Aos poucos eles se juntam e realizam gestos de intervenção...

Por fim, ele tenta mais uma vez. O milagre acontece. Obedecendo ao destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. A linha que até então estava solta vai se esticando. O que antes estava preso ao chão, aos poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.

O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a sua subida. O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer passado. Sorriso de querer só o presente. As linhas nas mãos. A pipa no céu...

Padre Fábio de Melo
02/03/2009


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Carta de D. Maria Lúcia

Eu não conheço Dona Maria Lúcia. Ela chegou em minha vida através de uma carta endereçada à Canção Nova. Quis partilhar com vocês o conteúdo de suas palavas. É um jeito de agradecer às inúmeras manifestações de carinho e respeito que tenho recebido das pessoas que me acompanham.
São as palavras de uma professora que eu gostaria de ter tido como mestra.

Com minha benção,

Pe. Fábio de Melo.

11/02/2009



"Meu querido padre Fábio. Eu ainda não sei ao certo o que desejava o repórter. Arrisco dizer que ele não saiu de casa desejoso de noticiar coisas boas. Também não pude perceber compromisso com a verdade. Exemplo disso foram as luzes que maldosamente colocaram em seus cabelos, através de recursos de computador. Eu o vejo toda semana na Canção Nova e por isso sei que foi recurso de maldade.

A reportagem se limitou a falar de nossa música cristã como se falasse das últimas fofocas do mundo das celebridades. Adjetivos irônicos, atingidos por um ranso que pertence ao grupo social que se diz inteligente, crítico, e que por isso não é capaz de reconhecer valores nas pessoas que fizeram pacto com os princípios religiosos.

Eu me senti ofendida. Eu também estava no Canecão por ocasião da gravação de seu precioso trabalho. Apesar de estar no auge dos meus oitenta e dois anos, asseguro-lhe ser ainda possuidora de excelente audição. Engraçado, mas em nenhum momento pude ouvir da platéia algum gracejo ou palavra que pudesse ferir o que lá esperávamos do senhor: seu ministério sacerdotal! Muito pelo contrário, o que pude ver foi o comprometimento de um público que sabia muito bem o porquê de estar ali. Não éramos expectadores, mas participantes de um momento raro onde a boa notícia do evangelho estava sendo dada com primor, elegância e bom gosto.

Lamento muito, meu querido padre, que o repórter tenha nos classificado de maneira tão desonesta. Não éramos um bando de histéricos naquela noite. Éramos um grupo de cristãos que acredita na Vanguarda de sua proposta. Éramos um grupo de pessoas que acredita na possibilidade de uma renovação eclesial, pela força de um discurso inteligente, profundo e sensível aos desajustes de nosso tempo. Naquela noite no Canecão, juntos nós rezamos, choramos e nos alegramos.

Querido padre Fábio, sou professora aposentada. Fiz de minha profissão um apostolado. Ensinei desde a minha mocidade. Fiz ler, fiz escrever, fiz compreender. Acreditei e continuo acreditando que o aprendizado é uma das coisas mais encantadoras que nós podemos desfrutar na vida. Vencer a ignorância, alcançar o conhecimento das coisas, ultrapassar os limites. Sempre fiz um esforço danado para mostrar aos meus alunos que a vida dos outros merece respeito, e que nossas palavras precisam ser medidas para que não cometamos injustiças.

Ao me deparar com a reportagem sobre os cristãos que cantam a fé, tive uma sensação de batalha perdida, de barco naufragado. Senti vontade de abraçar a Adriana, a jovem Jack que até então não havia conhecido, Aline Barros, Fernanda Brum. Tive vontade de correr atrás de vocês e pedir que não deixassem que a ironia das palavras atingisse o ânimo de seus corações. Gostaria de recordá-los, que por mais que seja grande o volume de dinheiro que o mercado religioso possa levantar, que vocês nunca se esqueçam das almas que se levantam pela força do ministério que Deus lhes confiou.

Meu querido padre, permita-me lhe chamar de filho. Eu o conheci antes dessa grande repercussão de seu trabalho. Foi com olhos desconfiados que o enxerguei pela primeira vez. "Não pode ser um padre!" - comentei com minha irmã que agora também o ama. Você falava de Drumonnd de Andrade, meu autor predileto. Mas ao mesmo tempo falava de Jesus, meu modelo de vida. Suas palavras me mostraram um cristianismo que eu nunca poderia ter morrido sem conhecer. Deixei cair por terra os meus preconceitos e me transformei numa divulgadora de sua obra.

Padre Fábio, sempre soube que você é um homem vaidoso, afinal nunca nos escondeu isso. Fala em suas palestras, brinca sobre o assunto em seus programas, e até nos motiva a ficarmos mais bonitos, por dentro e por fora. Minha netinha sempre me diz que eu devo cuidar das minhas unhas, pois o padre Fábio disse que é importante...

O principal o senhor já tem. É consciente das fragilidades que possui e as partilha conosco. Assim a gente se compromete a não passar dos limites. Você daí e nós daqui. Juntos vamos divindo a luta diária, o altar que nos coloca na mesma intenção, como o senhor tão bem nos ensina.

Quero lhe pedir, com autoridade de mãe, que você continue firme. Continue abrindo as portas para que outros possam levar a boa música cristã ao palco do Canecão e de todos os grandes espaços reservados à cultura. Continue ajudando na construção da nova identidade cristã, pregada com rostos jovens, calças legs ou jeans, camisetas e relógios bonitos.

Só não se esqueça de uma coisa. A razão que nos faz sair de casa, enfrentar a violência de nossa cidade, ficar plantada na fila, tomando chuva, voltando de madrugada como se ainda tivéssemos vinte anos, não é o aparato que construíram ao seu redor, mas sim, o rosto e a voz de Cristo, que por meio de seu talento e admirável vocação sacerdotal e artística, repercutem em nós, através de sua alma.

Padre, continue nos dando o Cristo. Ele é o que há de mais bonito no senhor. O resto é consequência.

Quanto à revista, não se preocupe. Ela não costuma falar bem de ninguém. Sempre foi assim! O importante é a gente não deixar que a mentira e a ironia prevaleçam sobre a verdade e o repeito.

Fica com Deus.

Desejosa de sua benção, sua filha espiritual,

Maria Lúcia."



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Meu Ofício

Este é o início de uma nova viagem. É o movimento da vida. Meu ministério se desdobra em estradas desconhecidas. Bagagens pesadas que minhas mãos não podem carregar sozinhas. Olho para o lado, peço ajuda. Desconfio, acredito, aposto no que considero ser o melhor caminho. A solidão existe. Dispenso sem saber ao certo o motivo da dispensa. Deixo ir embora, não corro atrás, e porque não corro, desaprendo de correr...

Meu ofício é breve, muito breve, quase nada diante da história da Igreja que anuncia o Cristo a quem amo. Meu ofício é controverso. Eu não sepultei algumas de minhas vaidades para ser o que sou. Eu ainda continuo acreditando que a pior de todas as vaidades é a vaidade de não ter vaidades. É a raíz torta que gera a repulsa pelo mais fraco, pelo diferente, pelo que considero pior que eu. Esta eu não quero. Nariz empinado que não permite olhar para o lado. Recuso.

Meu ofício está na vitrine. Atiram pedra os que querem. Banalizam como podem. Manchetes imensas noticiando coisas pequenas, desnecessárias. Preferem evidenciar alguns detalhes de minha condição humana.

Padre galã... Frequenta academia? Já fez plástica? Lipoaspiração? É a favor da camisinha? Tem amigos homossexuais? As perguntas não dizem respeito ao que quero anunciar.

Meu ofício. Eu sou da Igreja. Não criei uma seita à minha imagem e semelhança. Sou padre católico, apostólico, romano, vivendo no Brasil. Minha tentativa é acertar o alvo da misericórdia. Desejo de mostrar que o Evangelho é para nos tornar melhores. Gestando fraternidade, tolerância com os diferentes, abraço carinhoso que nos recorda que precisamos uns dos outros, mesmo que não tenhamos as mesmas convicções religiosas. Evangelho como proposta de aproximação, ponte com a casa do vizinho, para que a gente possa trocar medidas de café, colheres de açúcar, sorrisos ofertados enquanto lavamos a calçada em dias de sol escaldante.

Meu ofício. Minha sina de ser vitimado pela reportagem qualquer, feita pelo repórter que não sabe absolutamente nada a meu respeito, e que na responsabilidade de dizer, disse qualquer palavra...

O jornal de hoje embrulhará o peixe de amanhã. Pronto. Só assim a gente consegue voltar a dormir. Um consolo me vem do céu. Meu ofício não termina no peixe enrolado. Ele não é notícia para ser esquecida. Meu ofício tem o seu fundamento no altar da Eucaristia, lá onde a memória de Jesus é celebrada. Lá onde o canceroso aprende a morrer e o sentido da saudade é ensinado. Gente que vai, gente que fica...

Meu ofício. Mão sobre a testa traça o santo sinal da cruz. O pecado perdoado nos recorda o poder terapêutico da palavra. Deus não desiste de nós. É tão lindo pensar assim. Melhor ainda é sentir. Eu imagino. Por trás da fórmula sacramental há sempre uma tentativa de dizer - "Meu filho, volte a se amar! A cama está pronta. Sua mãe deixou tudo do jeito que você prefere. Por que dormir na sarjeta?"

Meu ofício. Eu, padre! Só isso. Querendo o direito de cuidar das minhas olheiras sem que isso pareça um crime. Querendo cantar a palavra de Jesus com a mesma qualidade com que cantam os românticos do mundo suas desilusões desamorosas. Eu, padre. Filho da Canção Nova, filho das Paulinas, filho dos padres do Coração de Jesus...

Meu ofício. Minha oração rezada nas atitudes concretas de minha humanidade. Minha missa silenciosa, sem alardes, sem fotografias. Meus encontros. Sorrisos que me tocam. Pessoas envelhecidas que me devolvem juventude. Olhares que me transformam. Cartas que relatam a visita que receberam de Deus, pela força de meu ofício. Moço que me conta entre lágrimas que deixou as drogas depois de ter lido um livro que escrevi. Evangélica que me escreve emails dando conselhos que acolho como direção espiritual. Amor, zelo que chega pelos caminhos inusitados da virtualidade. Criança que fica com os olhinhos brilhando porque viram o padre da propaganda que aparece na TV. Time de futebol composto por um grupo de rapazes nada convencionais, e que o canal de TV especializado em esportes anuncia - Filho do céu. O reporter perguntou a razão do nome. A resposta veio direta - Por causa de um padre que a gente gosta!

Por tudo isso e muito mais, eu não desisto. É meu ofício.


Padre Fábio de Melo
22/01/2009



quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Beleza e salvação

Enquanto o mundo segue com os seus julgamentos frios eu ainda prefiro me ocupar de minhas razões sagradas. É um jeito de tentar minimizar o poder de tudo o que é diabólico sobre mim. A mídia e sua constante necessidade de polemizar o menor dos fatos, retirando do anonimato os assassinos de todo dia e os elegendo como notícias formidáveis. O diabólico nas primeiras páginas, enquanto as pessoas que verdadeiramente mereceriam estampar as manchetes estão reclusas e esquecidas. O que me conforta é saber que o Bem não desiste. Ele sobrevive mesmo no esquecimento.


Tenho conhecido iniciativas maravilhosas por este Brasil imenso. Iniciativas pequenas, mas capazes de revolucionarem o mundo a partir de medidas menores. O poeta já dizia – “Vamos reformar o mundo? Vamos começar lavando os pratos.” Gente que está lavando os pratos do mundo, recomeçando a vida, fazendo pacto com a justiça, ainda que não noticiada.



São as iniciativas do terceiro setor, organizações não governamentais que resolveram arregaçar as mangas ao invés de protestarem com armas e bandeiras. Optaram por outra forma de manifestação. O protesto é civilizado, é construtor. Nasce e se desdobra em iniciativas concretas.


Um exemplo? “Beleza e Cidadania”, uma organização liderada por Lara Dee, uma nordestina que veio para SP em busca de oportunidades. Após alcançar os objetivos pessoais, ela resolveu cuidar dos marginalizados do mundo. A ONG que lidera trabalha a partir do lema “Beleza é fundamental, cidadania é vital!” Todas as iniciativas da organização estão voltadas para o desejo de devolver ao ser humano a beleza perdida. Não, não se trata de uma redução da beleza, limitando o conceito ao atrativo estético. A mística que a move é a Cosmética. Note bem que a palavra “cosmético” deriva da palavra grega ko·sme·ti·kós, que significa “hábil em adornar”. Lara Dee compreendeu a cosmética de maneira ampla e criativa. Mesmo que ela não saiba, ela está movida pela mística da criação do mundo, quando Deus ordena que o caos dê lugar à beleza.

A narração bíblica que trata das origens do mundo nos remete ao contexto da beleza. Deus ordena o caos e dele extrai a criação. O conceito de caos está diretamente associado ao contexto do “não belo”. Caos é a desordem, o anti-cosmos, a feiúra. O gesto criativo de Deus acende a luz e desfaz o poder do caos. É o próprio Deus quem canta: “Tudo é bom, tudo é belo!”

O grande problema é que desde a origem do mundo as escolhas humanas nem sempre estão a serviço da beleza e da bondade. O que a grande mídia noticia e expõe em letras garrafais costuma ser o descomprometimento humano com a continuidade da criação.


É tão bonito pensar que somos continuadores da criação, e que Deus continua criando cada vez que uma ação humana restitui a beleza perdida. É tão bonito pensar que Deus alcança o mundo pela força de braços comprometidos com a beleza e a verdade, assim como os de Lara Dee, que se mobiliza para vencer o poder das serpentes que legitimam a presença de tudo o que é diabólico e destruidor.

Lara Dee nos ensina que num rosto que fica mais bonito Deus canta a sua glória. Num coração que fica mais justo Deus reestabelece o seu projeto. Num único alcóolatra recuperado Deus recupera a humanidade inteira. Lara Dee nos ensina que o bem, mesmo quando não é noticiado ele não perde a sua força, porque se alimenta de convicções silenciosas, mas atuantes. Lara Dee nos ensina que o Cosmos precisa de Ética, e que a urgência de nossos dias é que a humanidade redescubra a habilidade de adornar o mundo.

Aprendamos com ela. Como? Buscando os caminhos da beleza, da verdade e da justiça. Desfazendo os poderes do caos sobre nós. Desarticulando as armadilhas das fealdades sociais que nutrem a indignidade, a falta de brio e as monstruosas iniciativas que desagregam a beleza criada.

Lara Dee é uma voz profética de nossos tempos. Não, ela não é gritada nos átrios sagrados de nossos templos religiosos convencionais. Ela está no mundo, nos subterrâneos do mundo, no fundo que nem sempre eu consigo alcançar. Ele não tem os mesmo altares que eu. Ela não reza com as mesmas cartilhas que eu rezo, nem tampouco celebra do mesmo jeito que eu celebro. O bonito é saber que mesmo estando em pontas tão distintas e distantes, os nossos corações estão congregados pelas mesmas causas e razões. Eu, na celebração da palavra que cristifica o mundo. Ela, na celebração concreta que coloca sobre o meu altar o sacrifício já resultado em ressurreição.
Lara Dee, sigamos juntos na transformação do mundo. Apaixonados pelos calvários da humanidade, mas comprometidos com as alegrias e com as belezas que vislumbramos, mesmo quando o opaco da tristeza insiste em permanecer.


Padre Fábio de Melo
15/12/2008






domingo, 30 de novembro de 2008

A Graça de Ser Só...


Ando pensando no valor de ser só. Talvez seja por causa da grande polêmica que envolveu a vida celibatária nos últimos dias. Interessante como as pessoas ficam querendo arrumar esposas para os padres. Lutam, mesmo que não as tenhamos convocado para tal, para que recebamos o direito de nos casar e constituir família.

Já presenciei discursos inflamados de pessoas que acham um absurdo o fato de padre não poder casar.

Eu também fico indignado, mas de outro modo. Fico indignado quando a sociedade interpreta a vida celibatária como mera restrição da vida sexual. Fico indignado quando vejo as pessoas se perderem em argumentos rasos, limitando uma questão tão complexa ao contexto do “pode ou não pode”.

A sexualidade é apenas um detalhe da questão. Castidade é muito mais. Castidade é um elemento que favorece a solidão frutuosa, pois nos coloca diante da possibilidade de fazer da vida uma experiência de doação plena. Digo por mim. Eu não poderia ser um homem casado e levar a vida que levo. Não poderia privar os meus filhos de minha presença para fazer as escolhas que faço. O fato de não me casar não me priva do amor. Eu o descubro de outros modos. Tenho diante de mim a possibilidade de ser dos que precisam de minha presença. Na palavra que digo, na música que canto e no gesto que realizo, o todo de minha condição humana está colocado. É o que tento viver. É o que acredito ser o certo.

Nunca encarei o celibato como restrição. Esta opção de vida não me foi imposta. Ninguém me obrigou ser padre, e quando escolhi o ser, ninguém me enganou. Eu assumi livremente todas as possibilidades do meu ministério, mas também todos os limites. Não há escolhas humanas que só nos trarão possibilidades. Tudo é tecido a partir dos avessos e dos direitos. É questão de maturidade.

Eu não sou um homem solitário, apenas escolhi ser só. Não vivo lamentando o fato de não me casar. Ao contrário, sou muito feliz sendo quem eu sou e fazendo o que faço. Tenho meus limites, minhas lutas cotidianas para manter a minha fidelidade, mas não faço desta luta uma experiência de lamento. Já caí inúmeras vezes ao longo de minha vida. Não tenho medo das minhas quedas. Elas me humanizaram e me ajudaram a compreender o significado da misericórdia. Eu não sou teórico. Vivo na carne a necessidade de estar em Deus para que minhas esperanças continuem vivas. Eu não sou por acaso. Sou fruto de um processo histórico que me faz perceber as pessoas que posso trazer para dentro do meu coração. Deus me mostra. Ele me indica, por meio de minha sensibilidade, quais são as pessoas que poderão oferecer algum risco para minha castidade. Eu não me refiro somente ao perigo da sexualidade. Eu me refiro também às pessoas que querem me transformar em “propriedade privada”. Querem depositar sobre mim o seu universo de carências e necessidades, iludidas de que eu sou o redentor de suas vidas.

Contra a castidade de um padre se peca de diversas formas. É preciso pensar sobre isso. Não se trata de casar ou não. Casamento não resolve os problemas do mundo.

Nem sempre o casamento acaba com a solidão. Vejo casais em locais públicos em profundo estado de solidão. Não trocam palavras, nem olhares. Não descobriram a beleza dos detalhes que a castidade sugere. Fizeram sexo demais, mas amaram de menos. Faltou castidade, encontro frutuoso, amor que não carece de sexo o tempo todo, porque sobrevive de outras formas de carinho.

É por isso que eu continuo aqui, lutando pelo direito de ser só, sem que isso pareça neurose ou imposição que alguém me fez. Da mesma forma que eu continuo lutando para que os casais descubram que o casamento também não é uma imposição. Só se casa aquele que quer. Por isso perguntamos sempre – É de livre e espontânea vontade que o fazeis? – É simples. Castos ou casados, ninguém está livre das obrigações do amor. A fidelidade é o rosto mais sincero de nossas predileções.

Padre Fábio de Melo
27/11/2008




quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O que da vida não se descreve...

Eu me recordo daquele dia. O professor de redação me desafiou a descrever o sabor da laranja. Era dia de prova e o desafio valeria como avaliação final. Eu fiquei paralisado por um bom tempo, sem que nada fosse registrado no papel. Tudo o que eu sabia sobre o gosto da laranja não podia ser traduzido para o universo das palavras. Era um sabor sem saber, como se o aprimorado do gosto não pertencesse ao tortuoso discurso da epistemologia e suas definições tão exatas. Diante da página em branco eu visitava minhas lembranças felizes, quando na mais tenra infância eu via meu pai chegar em sua bicicleta Monark, trazendo na garupa um imenso saco de laranjas. A cena era tão concreta dentro de mim, que eu podia sentir a felicidade em seu odor cítrico e nuanças alaranjadas. A vida feliz, parte miúda de um tempo imenso; alegrias alojadas em gomos caudalosos, abraçados como se fossem grandes amigos, filhos gerados em movimento único de nascer. Tudo era meu; tudo já era sabido, porque já sentido. Mas como transpor esta distância entre o que sei, porque senti, para o que ainda não sei dizer do que já senti? Como falar do sabor da laranja, mas sem com ele ser injusto, tornando-o menor, esmagando-o, reduzindo-o ao bagaço de minha parca literatura?

Não hesitei. Na imensa folha em branco registrei uma única frase. "Sobre o sabor eu não sei dizer. Eu só sei sentir!"

Eu nunca mais pude esquecer aquele dia. A experiência foi reveladora. Eu gosto de laranja, mas até hoje ainda me sinto inapto para descrever o seu gosto. O que dele experimento pertence à ordem das coisas inatingíveis. Metafísica dos sabores? Pode ser...

O interessante é que a laranja se desdobra em inúmeras realidades. Vez em quando, eu me pego diante da vida sofrendo a mesma angústia daquele dia. O que posso falar sobre o que sinto? Qual é a palavra que pode alcançar, de maneira eficaz, a natureza metafísica dos meus afetos? O que posso responder ao terapeuta, no momento em que me pede para descrever o que estou sentindo? Há palavras que possam alcançar as raízes de nossas angústias?

Não sei. Prefiro permanecer no silêncio da contemplação. É sacral o que sinto, assim como também está revestido de sacralidade o sabor que experimento. Sabores e saberes são rimas preciosas, mas não são realidades que sobrevivem à superfície.

Querer a profundidade das coisas é um jeito sábio de resolver os conflitos. Muitos sofrimentos nascem e são alimentados a partir de perguntas idiotas.

Quero aprender a perguntar menos. Eu espero ansioso por este dia. Quero descobrir a graça de sorrir diante de tudo o que ainda não sei. Quero que a matriz de minhas alegrias seja o que da vida não se descreve...

Padre Fábio de Melo
13/11/2008

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Eu, quando visto pelo outro

Quem sou eu? Eu vivo pra saber. Interessante descoberta que passa o tempo todo pela experiência de ser e estar no mundo. Eu sou e me descubro ainda mais no que faço. Faço e me descubro ainda mais no que sou. Partes que se complementam.

O interessante é que a matriz de tudo é o "ser". É nele que a vida brota como fonte original. O ser confuso, precário, esboço imperfeito de uma perfeição querida, desejada, amada.
Vez em quando, eu me vejo no que os outros dizem e acham sobre mim. Uma manchete de jornal, um comentário na internet, ou até mesmo um email que chega com o poder de confidenciar impressões. É interessante. Tudo é mecanismo de descoberta. Para afirmar o que sou, mas também para confirmar o que não sou.

Há coisas que leio sobre mim que iluminam ainda mais as minhas opções, sobretudo quando dizem o absolutamente contrário do que sei sobre mim mesmo. Reduções simplistas, frases apressadas que são próprias dos dias que vivemos.

O mundo e suas complexidades. As pessoas e suas necessidades de notícias, fatos novos, pessoas que se prestam a ocupar os espaços vazios, metáforas de almas que não buscam transcendências, mas que se aprisionam na imanência tortuosa do cotidiano. Tudo é vida a nos provocar reações.


Eu reajo. Fico feliz com o carinho que recebo, vozes ocultas que não publico, e faço das afrontas um ponto de recomeço. É neste equilíbrio que vou desvelando o que sou e o que ainda devo ser, pela força do aprimoramento.

Eu, visto pelo outro, nem sempre sou eu mesmo. Ou porque sou projetado melhor do que sou, ou porque projetado pior. Não quero nenhum dos dois. Eu sei quem eu sou. Os outros me imaginam. Inevitável destino de ser humano, de estabelecer vínculos, cruzar olhares, estender as mãos, encurtar distâncias.


Somos vítimas, mas também vitimamos. Não estamos fora dos preconceitos do mundo. Costumamos habitar a indesejada guarita de onde vigiamos a vida. Protegidos, lançamos nossos olhos curiosos sobre os que se aproximam, sobre os que se destacam, e instintivamente preparamos reações, opiniões. O desafio é não apontar as armas, mas permitir que a aproximação nos permita uma visão aprimorada. No aparente inimigo pode estar um amigo em potencial. Regra simples, mas aprendizado duro.


Mas ninguém nos prometeu que seria fácil. Quem quiser fazer diferença na história da humanidade terá que ser purificado neste processo. Sigamos juntos. Mesmo que não nos conheçamos. Sigamos, mas sem imaginar muito o que o outro é. A realidade ainda é base sólida do ser.



Padre Fábio de Melo
06/11/2008

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vida Comum


Minha vida é feita de caminhos comuns. A rua que me leva não flutua sobre atmosferas que não sejam humanas. Vejo o mundo em sua crueza cotidiana, onde Anas, Marias e Ofélias cruzam avenidas movimentadas, ávidas por tintas para colorir os cabelos.

A padaria da esquina não está iluminada por notícias de milagres. Não há maná no cardápio. O que há é o trigo cotidiano, faminto de fomes e pronto para o prazer da saciedade.

Eu olho devagar para cada coisa e descubro uma vida miserável, mas surpreendente. O homem da garapa não se cansa de acreditar na doçura que comercializa. Todos os dias, ao seu modo, ele se esforça para diminuir o amargor da vida. Moe a cana como se moesse a dureza da existência.

Ao lado, bem ao lado, o jornaleiro espera pelos leitores. Oferecerá ao longo do dia a tradução curiosa de um mundo transmudado em palavra. As manchetes gritam as fofocas que amanhã serão esquecidas, substituídas por outras, enquanto os romances em edições populares resguardam a beleza de homens e mulheres que ficaram eternos, mas que ainda são desconhecidos. O príncipe de Maquiavel está empoeirado no canto. Virou plebeu. Perdeu o garbo da edição primorosa. Caiu de posto.

Os morros dos ventos uivantes estão silenciados. As pilhas de revistas semanais gritam demais e não há vento que possa vencê-las. Iracema, a virgem dos lábios de mel está deitada ao lado de Brás Cubas, o defunto que fala. Romantismo e Realismo em expressões tão inexatas de uma mesma época. Eu continuo...

O ponto de ônibus está cheio. Uma mulher visivelmente abatida está desejosa de voltar para casa. A sacola de embrulhos é uma metáfora da vida. Presa à ponta dos dedos, a vida parece resguardada nos motivos de um papel pardo. O embrulho da mulher, a mulher do embrulho, tudo me faz crer que o caminho comum é o lugar da poesia. O onibus chegará, mas a casa ainda não. Haverá o processo de passar por outras casas que não são a sua. Enquanto isso, o desejo, este alimento que nos leva adiante será nutrido em porções menores.

Entro no meu prédio. Há um homem feliz por me ver chegar. “O senhor andou sumido!” Ele me disse. “É verdade!” Eu concordei. Andar sumido é coisa que não consigo resolver. As distâncias do mundo me separam do meu mundo, do homem da garapa, do jornaleiro, do porteiro que me quer bem...

O elevador me eleva. Chego ao destino de minha porta. O desejo de entrar é imenso. Recordo-me da mulher e suas sacolas de embrulhos. Outro pensamento me ocorre “Bem que eu poderia ter retirado Brás Cubas daquela banca! Seria uma forma de comemorar o centenário de Machado de Assis. Mas agora não importa. Não o fiz.”

Coloco a chave na fechadura. Faço o movimento de abrir. Adentro minha casa. O silêncio de minhas coisas não corresponde aos gritos de minhas causas. Não estou só. O mundo está dentro de mim.

Padre Fábio de Melo
21/10/2008

Fonte: Blog Fábio de Melo

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Outonos e Primaveras....

Primavera é tempo de ressurreição. A vida cumpre o ofício de florescer ao seu tempo. O que hoje está revestido de cores precisou passar pelo silêncio das sombras. A vida não é por acaso. Ela é fruto do processo que a encaminha sem pressa e sem atropelos a um destino que não finda, porque é ciclo que a faz continuar em insondáveis movimentos de vida e morte. O florido sobre a terra não é acontecimento sem precedências. Antes da flor, a morte da semente, o suspiro dissonante de quem se desprende do que é para ser revestido de outras grandezas. O que hoje vejo e reconheço belo é apenas uma parte do processo. O que eu não pude ver é o que sustenta a beleza.

A arte de morrer em silêncio é atributo que pertence às sementes. A dureza do chão não permite que os nossos olhos alcancem o acontecimento. Antes de ser flor, a primavera é chão escuro de sombras, vida se entregando ao dialético movimento de uma morte anunciada, cumprida em partes.

A primavera só pode ser o que é porque o outono lhe embalou em seus braços. Outono é o tempo em que as sementes deitam sobre a terra seus destinos de fecundidade. É o tempo em que à morte se entregam, esperançosas de ressurreição. Outono é a maternidade das floradas, dos cantos das cigarras e dos assovios dos ventos. Outono é a preparação das aquarelas, dos trabalhos silenciosos que não causam alardes, mas que mais tarde serão fundamentais para o sustento da beleza que há de vir.

São as estações do tempo. São as estações da vida.

Há em nossos dias uma infinidade de cenas que podemos reconhecer a partir da mística dos outonos e das primaveras. Também nós cumprimos em nossa carne humana os mesmos destinos. Destino de morrer em pequenas partes, mediante sacrifícios que nos faz abraçar o silêncio das sombras... Destino de florescer costurados em cores, alçados por alegrias que nos caem do céu, quando menos esperadas, anunciando que depois de outonos, a vida sempre nos reserva primaveras...

Floresçamos...



Padre Fábio de Melo

30/09/08

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O Poder da Palavra Imperativa

Imperar é atributo que sugere poder. O imperador comanda o império, rege com autoridade. Imperativo é tudo o que ordena, o que governa.

Na linguagem temos os verbos imperativos. São aqueles que dão ordens. Sempre que os leio escuto gritos, vozes querendo me convencer do conteúdo que sugerem. O verbo é a casa da ação. Dele se desdobram movimentos. Verbos mobilizam os sujeitos. É a regra da gramática, mas é também a regra da vida.


Penso nas palavras que me ordenam. Quero compreender a razão de gritarem tanto sobre os meus ouvidos e de me moverem para a vida que vivo. A interpretação que faço do mundo passa pelos verbos que imperam sobre mim. Por isso, a qualidade da vida depende dos verbos que imperam sobre ela.
Gosto de conjugar o verbo “amar” no imperativo – “Ame!” Não há necessidade de complementos. Ame este ou aquele. Ame agora ou depois. Não há justificativas. É só amar. É só seguir a ordem que o verbo sugere. “Ame!” Repito. Não escuto gritos, mas uma voz mansa com poder de conselho. Voz que reconheço ser a de Jesus a me conduzir por um caminho seguro que me fará viver melhor. “Ame!” Ele repete! “Ame!” Ele aconselha.


Tenho aprendido que o amor é o melhor jeito de responder às questões do mundo. Experimento isso na carne. Eu fico melhor cada vez que amo. Digo isso como homem religioso que sou. A religião é a casa do amor, assim como o verbo é a casa da ação. Se não é, não é religião. É esconderijo onde acomodamos nossa hipocrisia. É lugar onde justificamos nossas intolerâncias. É guerra fria que fazemos em nome de Deus.
Eu ainda acredito que o amor é a religião que o mundo precisa. Jesus ensinou isso. Morreu por crer assim. Elevou à potência máxima o impertivo do amor, e não fugiu das consequências. Tenho medo quando nos especializamos em qualificar as pessoas como boas ou ruins, em nome da religião. Tenho medo de deixar que outros verbos imperem sobre minha vida. Verbos que excluem, abandonam, jogam fora e que condenam a partir de aparências...
É nesta hora que eu me recordo do imperativo de meu Mestre - “Ame!” E só assim eu descanso.

Eu sei que você também costuma se perder em tantas realidades desta vida. Eu sei que o seguimento de Jesus costuma nos colocar em encruzilhadas, porque não há seguimento sem escolhas. É natural que nasçam dúvidas e a gente se pergunte – E agora? Como ser de Deus no meio de tantas realidades contrárias? Como manter o olhar fixo no que cremos sem que a gente precise cometer o absurdo de desprezar os que creem diferente de nós?
Nem sempre conseguimos acertar, fazer da melhor forma.




Quer um conselho?
Ame!



Padre Fábio de Melo
(16/09/08)


terça-feira, 9 de setembro de 2008

O que querem essas mulheres?


“Mulheres de aço e de flores” é minha primeira aventura literária. A Literatura, paralela a tudo o que escrevo será um caminho que trilharei. É uma escolha que amadureci.

Ao escrever “Mulheres de aço e de flores” eu mergulhei no encanto do universo feminino e sobre ele quis contar histórias. São mulheres reais, outras de sonhos, mas todas elas estão vivas em algum lugar deste mundo.

Eu não quis escrever um livro de catequese. Não quis escrever um livro de auto ajuda. Quis apenas explorar os sentimentos humanos e respeitosamente tocá-los a partir de minha sensibilidade poética. Não tive medo de ousar. Não fiquei preocupado que as pessoas pudessem dizer – “Nossa, isso não é coisa que um padre possa escrever!” Não quis me prender a uma visão limita, que confisca o universo religioso ao discurso beato e pouco humano. Eu me inspirei nos escritores sagrados, e nas histórias que a Sagrada Escritura resguarda. A Bíblia é um livro vivo feito a partir de pessoas concretas e por isso é dialético, controverso. Há relatos interessantíssimos que mostram o lado mais mesquinho da vida humana. As traições, os assasinatos, os incestos, enfim, tudo o que é humano e que sempre temos coragem de contar.

O meu livro é um espaço de segredos confessos. É uma fala que deixei nascer porque a respeito profundamente. As mulheres, desde as mais recatadas até as mais ousadas, todas elas cumprem o ofício de mostrar o que somos. Elas, na coragem que a literatura me empresta, contam o que naturalmente não contamos. Duvidam do que não temos coragem de duvidar. Amam de um jeito que não gostamos de amar.E falam, falam e falam...

A literatura é o avesso da vida, mas pode ser também o seu lado mais acertado. Através dela podemos sugerir uma vida que ainda não temos, ou sonhos que ainda não nos pertencem. Ela pode nos colocar no prumo onde sobrevivem nossas forças e fraquezas, nossas vergonhas e nossas belezas.

“Minhas mulheres” são assim. Elas querem nos lembrar que é bonito ser humano. Que não é vergonhoso ser portador de fragilidades. Que a dor é universal, que a alegria nem sempre. Que a esperança é a terceira margem do amor. Que há sempre uma luz a ser devolvida, uma vela a ser acesa, um Elviro a ser domesticado, um Redentor a ser reconhecido. “Minhas mulheres” querem nos ensinar que o amor humano é a outra face do amor divino, e que ao ser resgatado humanamente pelo amor que me toca, de alguma forma os meus dedos alcançam a cruz. Que na pureza de um beijo experimentado a eternidade já nos mostra o seu sabor.


“Minhas mulheres” querem nos recordar que um riso pode nos ajudar a esquecer o peso da vida. Que uma história não pode ser vista somente a partir de uma frase, e que o texto tem sempre que ser analisado a partir de seu contexto. A mesma regra vale para a Sagrada Escritura, pois fora do contexto, há frases bíblicas que podem justificar até mesmo o assasinato brutal.

“Minhas mulheres” não são ofensivas. Elas são filhas do tempo, dos ventos, das dores, das alegrias. São filhas da vida, e nada que é verdadeiramente vivo pode ofender. Elas só são sinceras.

Por isso, se você desejar conhecer as “minhas mulheres”, aproxime-se do livro sabendo que se trata de uma obra literária. É um livro de histórias.

Não queira encontrar conselhos formulados, prontos para serem aplicados.

Mas uma coisa eu lhe prometo – Riso e choro! Tudo ao mesmo tempo.

Por que? Não sei. Eu também não sei porque as coisas me fazem rir ou chorar. Eu apenas obedeço ao impacto da vida e por ela me deixo envolver.

O meu livro é simples. Não é um tratado de teologia. Está longe de querer ser isso. Eu só o considero religioso. Não sei fazer nada que não seja. Ele tem sacralidades, mas tem também os rastros do profano. A vida é assim. O desafio do leitor é recolher sob o altar do coração o que ele eleger como sagrado, e expulsar o que considera profano. Nisso eu não entro, não tenho acesso porque é trabalho do leitor.

Agora uma coisa é certa – A maior pretensão das minhas mulheres é mostrar que no aço da dureza humana, a flor da Graça divina costuma nos surpreender generosa.

Boa leitura.

Padre Fábio de Melo
03/09/08