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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A pedra está posta...


A pedra está posta.
O destino de ir e de vir
já terminou.
Silenciem as portas
e seus umbrais
que esperam por chegadas.
Sirvam-me neste momento
de algumas porções de
saudades.
E depois, a coragem.
Quero ficar aqui.
Não há lugar nenhum
a que eu possa chegar,
senão a mim.
Que meu ficar seja
para preparar o futuro.
Um ficar cheio de silêncio,
sem as dispersões das falas,
sem os absurdos das respostas prontas.
Que o meu sofrer se transmude
em atos de esperanças,
assim como a noite dá lugar ao dia.
O meu querer é pouco,
cabe em minha mão.
Eu só quero é ser real.


Fábio de Melo

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pedido


Pedido
Eu não quero que você seja eu.
Eu já tenho a mim.
O que quero é que você chegue
Com seu poder de chegar
E de me devolver pra mim.
Que você chegue com seu dom
De também me fazer chegar
Perto de mim...
Pra me fazer ver o que sou e que só você viu.
Pra eu ser capaz de amar também
O que só você amou.
Eu não quero que você seja igual a mim.
Eu já tenho a mim.
Não quero construir uma casa de espelhos
Que multiplique minha imagem por
Todos os cantos.
Quero apenas que você me reflita
Melhor do que julgo ser.



Fábio de Melo
(Quem me roubou de mim)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Saudade de Mãe...

Coloquei o filtro da arte naquela cena comum
e a luz que até então estava escondida
veio surpreender-me com seu poder de claridade.


A mulher simples, mãos calejadas de lida rotineira,
mulher que aprendeu a curar as dores do mundo
a partir dos meus joelhos esfolados de quedas e estripulias.


Aquela mulher, minha mãe,
rosto iluminado por uma labareda que tinha origem no fogão de lenha
trazia consigo o dom de me devolver a calma
que a vida tantas vezes insistiu em me roubar.


Aquela cena, mulher, fogão de lenha,
panela preta, escondendo a brancura de um arroz feito na hora
é uma das cenas mais preciosas
que meu coração não soube esquecer.


Saudade de mãe é coisa sem jeito.
Chega quando menos imaginamos:
um cheiro, uma melodia, uma palavra, uma imagem
e eis que o cordão do tempo nos convida ao retorno à infância,
como se um fio nos costurasse de novo ao colo da mulher
que primeiro nos segurou na vida
e agora pudesse nos regenerar.


Saudade de mãe é ponte que nos favorece um retorno a nós mesmos.
Travessia que nos recorda uma identidade muitas vezes esquecida,
perdida na pressa que nos leva.


Saudade de mãe é devolução,
é ato que restitui o que se parte,
é luz que sinaliza o local do porto,
é voz no ouvido a nos acalmar
nas madrugadas de desespero e solidão
através de uma frase simples:


"dorme meu filho, dorme"


Hoje, nesse dia em que a vida me fez criança de novo;
neste instante em que esta cena feliz tomou conta de mim,
uma única palavra eu quero dizer







Oh, minha mãe... que saudade eu sinto de você!






(Pe. Fábio de Melo)







Para minha mãe...

Saudade que dói miúda, de tão grande...

em silêncio, no seu canto...

no que soube, um dia, ser o seu coração...





Fonte: CD Enredos do Meu Povo Simples

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Egoísmo


Sinto falta de você.

Mas o que sinto falta é de tudo o que é seu e me falta.

Sinto falta de minhas faltas que em você não faltam.

Sinto falta do que eu gostaria de ser e que você já é.

Estranho jeito de carecer, de parecer amor.

Hoje, neste ímpeto de honestidade que me faz dizer,

Eu descobri minhas carências inconfessáveis que insisto em manter veladas.

Acessei o baú de minhas razões inconscientes

E descobri um motivo para não conitnuar mentindo.

Hoje eu quero lhe confessar o meu não amor, mesmo que pareça ser.

Eu não tenho o direito de adentrar o seu território

Com o objetivo de lhe roubar a escritura.

Amor só vale a pena se for para ampliar o que já temos.

Você era melhor antes de mim, e só agora posso ver.

Nessa vida de fachadas tão atraentes e fascinantes;

nestes tempos de retirados e retirantes, seqüestrados e seqüestradores,

A gente corre o risco de não saber exatamente quem somos.

Mas o tempo de saber já chegou.

Não quero mais conviver com meu lado obscuro,

E, por isso, ouso direcionar meus braços

Na direção da dose de honestidade que hoje me cabe.

Hoje quero lhe confessar meu egoísmo.

Quem sabe assim eu possa ainda que por um instante amar você de verdade.

Perdoe-me se meu amor chegou tarde demais,

Se meu querer bem é inoportuno e em hora errada.

É que hoje eu quero lhe confessar meu desatino,

Meu segredo tão desconcertante:

Ao dizer que sinto falta de você

Eu sinto falta é de mim mesmo.

Fábio de Melo
(Quem me Roubou de Mim?)